domingo, 14 de março de 2010

Dançarinos do Ventre: Köçek

Dança do ventre é uma arte feminina... Hein?! Sempre houveram "homens dançarinos do ventre". Mas muitíssimo interessante saber que eles "sobreviveram" ao Império Turco Otomano! Choquei! Eu estudei por um bom tempo sobre sexualidade no Islã, e sabia que essa versão misógina e conservadora dele havia se manifestado fortemente com a invasão dos mongóis no séc. XIII. Após esse período, poucos núcleos se mantiveram "liberais", até finalmente se tornarem inexistentes. As dançarinas do ventre se relegaram à prostituição tão somente, e os homens passaram a adotar a sua postura machista. Mas eis que descobri que nem tudo era preto e branco! Köçek eram os famosos dançarinos do ventre deste império!

O interessante é saber que os "odaliscos" surgiram exatamente por causa da grande barreira entre os sexos que a interpretação da religião impôs. Era proibido ao homem ver uma mulher, que não sua esposa, dançando, logo a mulher foi substituída por um homem com trejeitos femininos! Resolvida a questão! A função do Köçek era entreter as festas dos palácios, fazendo uma dança do ventre tipicamente feminina. Eles precisavam ser jovens e belos, tanto que seu nome significa "jovem", "pequeno".

Para se tornar um dançarino do ventre era necessário uma longa preparação. O menino iniciava seu treinamento por volta dos sete anos, e sua carreira durava enquanto mantivesse sua juventude. Estes dançarinos geralmente se casavam entre os 25 e 30 anos, passando a não mais se apresentar, mas a organizar os grupos de dançarinos. Durante o séc. XVI, foram contabilizados mais de 250 grupos em atividade!

A dança realizada por eles era chamada de köçek oyunu, apresentando elementos árabes, sírios, gregos e curdos. A música que embalava a apresentação seguia um estilo especial denominado köçekce. Vários instrumentos de percussão também apareciam, mas as apresentações poderiam conter também uma atmosfera de encantamento. Além de dançar, os dançarinos também tocavam uma versão primitiva de madeira do snuj, o que hoje chamamos de castanholas. A presença destes dançarinos era sempre requisitada para festas de casamentos, circuncisões, festivais, ou quando os sultões queriam animar o palácio!

A postura destes dançarinos era extremamente provocativa e erótica, sua roupa trazia cores fortes, geralmente vermelho e preto, e tecidos finos. Usavam um colete, uma saia rodada ou uma calça (shalvars) e um lenço amarrado no quadril, além de muitas jóias. Seus movimentos visavam provocar sexualmente, e muitas vezes os dançarinos estavam disponíveis para fins sexuais. Apesar desta incongruência com os valores islâmicos, muitos köçeks foram famosos, chocando ocidentais, ao mesmo tempo que eram a "inspiração" para poetas e músicos do império. Entretanto, em 1856, diante da completa prostituição que tomara esta atividade, o sultão proibiu a sua prática, o que fatalmente a fez desaparecer. Destino semelhante ao que ocorreu com as Ghawaaze no Egito.

Hoje em dia existem dançarinos como foram os köçeks, claro excluindo a parte da sexualização desta atividade. Da mesma forma, a dança do ventre feminina no Ocidente vem angariando o status de arte, enquanto por muito tempo ela esteve aliada à prostituição no Oriente (e é ainda vista assim por lá). Entretanto, o papel do homem na dança do ventre ainda vem muito mais carregado de tabus que o feminino, acredito que pelos valores cristãos ocidentais, que condenam a homossexualidade, e fazem com que homofóbicos como o Dourado do BBB 10 sejam os mocinhos da história. Acho que é legal vermos que todos estamos no mesmo barco, homens e mulheres, que praticamos a dança do ventre e temos uma origem comum no mundo árabe. Afinal, dançando bem, que mal tem?

Bem, aqui abaixo o que sobrou da sensual dança dos köçeks. Digo isso porque acho que nesses dois séculos os dançarinos perderam a sensualidade, a feminilidade, ficou uma coisa mais folclórica, quase uma paródia.



E aqui abaixo o que creio que seria uma apresentação próxima do que eles executavam, pois utiliza o estilo musical - köçekce - que lhes era característico (até a roupinha é a mesma que a deles).

6 comentários:

Camila Flavia disse...

Você é ótima Célia! Sempre trazendo informações históticas e culturais muitíssimo interessnates!!!

Camila Flavia disse...

Ah o primeiro vídeo tb achei a dança muito caricata... mas no segundo está bem interessante

Celia Daniele disse...

ÊÊ! Obrigada Camila! Algumas fontes afirmam até que os dançarinos do ventre eram mais requisitados que as mulheres (chamadas de çensi no Império Turco Otomano), não sei se pela hipocrisia de ver uma mulher "livre" e sensual, descoberta pelo véu, ou se porque naquela época os homens eram melhores do que elas dançando!
Quem quiser mais informações, esse blog aqui é ótimo (em inglês): http://azizasaid.wordpress.com/2008/08/31/a-question-of-kocek-men-in-skirts/

Hanna Aisha disse...

Isso me parece com a dança das colheres, que é turca. Tenho um artigo sobre isso. Vou reler tudo e tentar fazer associação.
Bom post!
Beijos

Samara Alves disse...

Oii, muuuuito interessante o artigo!

Poderia informar as fontes que tirou? estou desenvolvendo um tcc sobre dança do ventre para homens e estou procurando bibliografias...

Beijos

Dança do Ventre Brasil disse...

Manda um e-mail pra gente que vou procurar as fontes, e te passo!

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