domingo, 22 de julho de 2012

O que é Dança do Ventre?

Parece óbvio para as praticantes da dança do ventre o que ela é. Mas me diga como você a descreveria? Geralmente ouvimos poucas palavras, como "arte milenar", "dança oriental", "dança árabe", ou então algo mais completo como "É dança de celebração da feminilidade" ou "Uma dança tão antiga quanto à história do homem"(sic). A sensação que eu tenho que as dançarinas são múmias vivas, representantes fiéis de uma dança imutável ao longo de séculos, milênios, que cada dançarina pudesse independente do local, do tempo, do seu corpo, da sua história, pegar a dança do ventre e dançá-la da mesma forma e essência eternamente

As outras definições também perdem um pouco a sua eficácia se olharmos atentamente para as mesmas: "dança árabe", o que é ser árabe? Como defende a dançarina Juliana Cruz, e eu sempre falei disso, hoje apenas a língua árabe unifica o que seria "ser árabe", pois se fosse ser "árabe" no sentido original de vindo da Arábia Saudita, lá não tem dança árabe, oriental, do ventre, meeeesmo, hehe. Agora a definição de ser árabe através de um idioma possibilita que definamos a dança como árabe por tal? Dos 22 países árabes, esse árabe único é apenas o Standard Arabic, o árabe clássico, mas as pessoas se comunicam, cantam e dançam em dialetos árabes, muitas vezes bem diferentes entre si. Onde estaria a unidade onde poderíamos colocar uma única dança para todos, se nem mesmo a língua de fato é a mesma?

Quanto à dança oriental, ela se adaptaria bem, se houvesse um entendimento que pouco encontramos por aí:  não existe dança do ventre original. A Dança Oriental poderíamos vê-la como modalidade de dança, livre, que abarca outros estilos, que encontra outras culturas, outros corpos, outros sexos, outras mentes, que a constroem, as desconstroem ao longo do tempo. A dança oriental seria uma dança que faz parte de um contexto cultural, possui movimentos, leituras que a distinguem de danças de outras regiões, mas ela não se prende a uma identidade étnica, nem ao tempo ou a uma falsa origem: afinal, quem se preocupa o que levou a criar o ballet no séc. XVI? Por que o ballet é. A dança oriental deveria apenas ser também. Isso é tornar dança do ventre em arte.

O problema de adotar também uma nova concepção, acredito que seja porque muitas dançarinas se prendem a conteúdos de dança como se fossem a sua forma de legitimação como arte. Mas algumas delas somente aprendem os conteúdos, não os pesquisam, não os compreendem. Não estou falando como palmatória do mundo, mas eu tinha ouvido falar que Mahmoud Reda (do Reda Troupe) tinha sido um cara fantástico, pois ele havia divulgado ao mundo os folclores egípcios. Legal. Mas hoje conversando com a Lívia, descubro uma pessoa que tem o discernimento dos deuses, chamada Juliana, falando algo muito interessante e que acho que poucas bailarinas sabem (ou divulgam): que esses folclores egípcios que conhecemos são criações do Mahmoud Reda. Sério, me deu vontade de ir nos posts de folclore e apagar tudo! :p, mas vou deixar agora uma observação que estes folclores são transposições para palco feitas pelo Mahmoud Reda e que elas não correspondem fielmente a um folclore original. Para quem duvida do que estou falando, quem  assina embaixo essas afirmações é nada mais, nada menos que Anthony Shay, e vocês podem ler no livro dele aqui, páginas 146 e 147. Agora me diz se você já não deu de cara com um workshop que a professora faz questão de falar não só que as mulheres lá nas plantações de cana de Porto Said dança(va)m daquele jeito, com traz "fotos" para comprovar (imagens orientalistas).

Eu gosto muito de dançar, mas sem querer entrei mais a fundo na dança com o blog, não é mais só uma atividade corriqueira de lazer, mas a cada dia sinto uma necessidade de ver a dança a qual me identifico como arte, e duvido muito que isso fosse algo que a engessasse. Eu que falo "dança do ventre" para o senso comum, apesar dele carregar fortemente o olhar preconceituoso do orientalismo, me transvisto de "dança oriental" e busco a arte, mas não "arte milenar", pois a Arte é uma eterna criação.

Querem ver um shaabi original? XD


E aqui abaixo uma coreografia do Mahmoud Reda inspirada nos folclores egípcios:


Definição para dança do ventre:
(prévia, pois sugestões são bem-vindas)

"Dança do ventre é o nome ocidental dado à "dança oriental" (raqs sharqi). É uma modalidade artística de dança, cujos movimentos principais se distribuem em ondulações, oscilações, rotações e movimentos circulares centrados no baixo ventre (assoalho pélvico), os quais são executados em equilíbrio em relação ao restante do corpo."

17 comentários:

Samara Alves disse...

Eu não concordo muito com essa definição "dança oriental"...
A dança do ventre é sim UMA dança oriental, até pq existem vários países no oriente e várias danças orientais.

Com respeito ao assoalho pélvico essa colocação não ficou muito clara pra mim, pq não vejo tanta força aplicada à essa região muscular na hora dos movimentos. No caso de alguns shimmies e batidas usamos um pouco a contração desses músculos, mas não acho que gire em torno disso...

De resto realmente, Anthony Shay deixa isso bem claro, de q os folclores foram "enfeitados" para o palco...

Beijos

Celia Daniele disse...

Olá Samara, obrigada pelo comentário!

Olha, sim, concordo que haja várias danças orientais, então quando defino a "dança do ventre" como "dança oriental", não estou excluindo as outras, ao contrário, as outras também são danças orientais, o "problema" é que a "dança do ventre" não é um estilo fechado como tantos outros, ela agrega danças e estilos de diversas regiões, por isso é como se ela fosse um pedacinho de todas elas. O porquê de "dança oriental" é meramente geográfico, porque o que chamamos de "dança do ventre" é um agregado de modalidades de danças do Oriente, que vão desde ao Magreb ao Mashriq e ao golfo pérsico e arábico.

Quanto à definição, você pode reescrevê-la se quiser, mas o sentido de "movimentos principais" não é de força, mas de foco. O que diferencia a "dança do ventre" das demais danças é exatamente a riqueza e a concentração de movimentos que exaltam o baixo ventre (o assoalho pélvico foi só uma maneira de localizar o que seria "baixo ventre"), não quer dizer que haja força ali, até porque existem maneiras diferenciadas de fazer um mesmo movimento, tem gente que o tira das pernas outras do quadril, de qualquer maneira o acento, o destaque fica no baixo ventre.

Anônimo disse...

Afinal não entendi direito sobre como qualificar a dança do ventre folclórica. Existe o folclore onde? Fiquei meio perdida nas explicações.
bjos. mallya

Celia Daniele disse...

Olá Mallya,
O folclore, segundo o dicionário, é "Conjunto das tradições, lendas ou crenças populares de um país expressas em danças, provérbios, contos ou canções." Logo na dança, ele é toda e qualquer dança executada como parte de uma herança cultural de seus locais de origem.

O que falamos aqui é que os folclores que conhecemos não são folclores de fato. São representações do folclore criadas pelo dançarino egípcio Mahmoud Reda. Então quando saímos por aí ensinando como deve ser esse folclore tal, e o folclore outro, na verdade estamos ensinando não "folclore", mas coreografias de palco/peças teatrais musicais inspiradas em folclores.

Vamos dizer que é o mesmo que ao ensinar Frevo, ao invés de ensinar aquele Frevo das ruas no Carnaval, ensinássemos o Frevo que dançam os artistas no "Dança dos Famosos" do Faustão.

O que o Mahmoud disse nunca foi que ele trazia folclore para o palco, mas exatamente o alterava para que pudesse ser uma dança de palco (e não de rua, de vila, de campo). Daí até mesmo os figurinos que dizemos ser característicos, são criações inspiradas dele.

Entendeu?

Melissa Souza disse...

Sua definição está muito boa!
E realmente, concordo plenamente com o blog, sempre tive uma dificuldade imensa para descrever a Dança do Ventre para terceiros, sempre achei que os nomes alternativos - Dança árabe/oriental - não eram adequados.
Dança do Ventre é mais do que um título, não tem uma origem correta, evoluiu muito, então é claro que é uma modalidade artística de uma dança feminilizada.

Beijocas

Hanna Aisha disse...

Eu, particularmente, nunca me incomodei com o nome Dança do Ventre. Acho que existem outras definições muito mais importantes para se clarear e os folclores é uma delas!

Anônimo disse...

concordo com a Hanna, o termo nunca "dança do ventre" nunca me incomodou.... mas o texto é otimo...
bjsss giselle costa

Celia Daniele disse...

Olá Hanna e Gisele,

Olha, eu me incomodo com o nome "dança do ventre" porque ele é totalmente carregado dos preconceitos que o senso comum (valeu orientalismo) deu a essa dança. Quem nunca teve que se explicar porque fazia dança do ventre, ou receber olhares maliciosos, ou ainda professoras que recebem ligações/alunas querendo aprender uma dança pra sensualizar, porque senão não é a "dança do ventre" que o povo conhece. Para mim "dança do ventre" está que nem a palavra "macumba": ela deturpa e estereotipa esta modalidade de dança justamente por estar totalmente atrelada a pensamentos pré-concebidos do orientalismo.

E Hanna, eu acho importante discutir sobre isso. Acho importante discutir sobre qualquer coisa na verdade, desde que se tenha espaço para isso. No caso dos folclores, quem se baseia neles como reais tem o telhado de vidro, acho que seria mais simples aceitarem que ele não pode ser "definido", uma vez que o que se chama de folclore é uma recriação inspirada, o que dá a liberdade de outras pessoas também criarem suas versões. (a não ser que a pessoa explicite que é uma coreografia inspirada no Reda Troupe).
Acho talvez que seja interessante fazer uma resenha aqui (ou quem tiver disponibilidade) do livro do Mahmoud Reda e tentar entender como ele criou o que chamamos de folclore.

Manu disse...

Oi Célia,

até onde sei não são todos os folclores que têm as mãos do Reda... o Khaleege, a dança do bastão/bengala são de fato folclóricas.. mas o meleah, a dança do jarro, flores, entre vaaarias outras, foram leituras que ele fez da cultura mesmo...
talvez eu esteja enganada, mas acredito que uma boa forma de entendermos melhor isso seria vendo os vídeos das principais bailarinas antigas.. pelo menos não me lembro de ter visto suhair zaki, fifi e tantas outras bailarinas eternas dançando um meleah, por exemplo...
mas o bastão, os snujs e até o pandeiro, dependendo do país, estão presentes na dança das bailarinas mais antigas....

Manu disse...

Ah, e temos tb a dissertação de mestrado da Farida Fahmy, que é essencialmente sobre o trabalho do Reda... infelizmente, ainda não tive oportunidade de ler o trabalho dela, mas acredito que deva elucidar bem isso!

Celia Daniele disse...

Olá Manu,

Poxa, muito obrigada pela dica da dissertação, vou procurar pra ler.
Eu achei uma entrevista do Mahmoud Reda sobre isso, mas ainda não encontrei detalhadamente os folclores que ele criou, mas sei que ele fala que a influência dele atinge até aqueles que já existiam, como o Saidi, o Tahtib, pois ele adicionou passos de ballet e a própria plástica dos movimentos que ele desempenhou influenciou fortemente outros dançarinos. Ele mesmo fala (tradução minha): "Os artistas por todo o Egito me seguiram. Eles creem que meu trabalho é autêntico.". Dessa forma, acredito que os folclores egípcios, mesmo aqueles não criados por Reda, tenham sua influência.

Já os folclores de outros países, acredito que eles tenham outras influências que não Reda (eu não sou adepta de uma ideia de danças imutáveis e isoladas), como o Dabke (Líbano e Palestina, principalmente) e o Khaleege (golfo pérsico). Nesses locais também há companhias de dança fortes, como a Caracalla, que utilizam elementos ocidentais em cena. De qualquer, é sem sombra de dúvida que Mahmoud Reda quem teve capacidade de se apropriar dos folclores de seu país de tal forma a ponto de seu trabalho ser confundido como tais.

Laura disse...

Esse lance do folclore sempre me incomodou, desde que descobri sobre o Reda (isso já faz algum tempo). Além disso, o atual estado da dança do ventre (pessoalmente eu gosto do nome, sei que carrega o orientalismo com ele, mas não vejo nenhuma alternativa razoável), onde as pessoas acham que estão fazendo o clássico/certo quando na verdade estão dançando um estilo extremamente moderno e da moda, me preocupa muito mais do que o nome da dança. E não sei o que está acontecendo no Brasil, mas a galera cismou com o Egito, como se fosse a única fonte de dança do ventre, ou a fonte primária/verdadeira, quando isso não é comprovado em absolutamente nenhum lugar. Inclusive, se a dança tiver origem árabe mesmo, esquece, porque os árabes invadiram o Egito, o povo original do Egito Antigo não é árabe.
Enfim, acho que temos questões mais importantes, como desmistificar o folclore, do que discutir o nome da dança. :-) E quanto a esse ponto, o seu post está perfeito!!! Agora, uma pergunta muito importante: QUE LIVRO DO REDA??? Eu preciso saber que livro é esse e onde vende!!
Beijos!

Celia Daniele disse...

Oi Laura,

Novamente agradeço a opinião, mas eu acho importante falar sobre o nome, ao menos eu percebo essa questão fortemente carregada do orientalismo. Se um dia o termo "dança do ventre" não gerar tantos preconceitos, que bom, eu não me incomodarei mais com ele.

Quanto ao livro do Mahmoud Reda, ele se chama "Interview with Mahmoud Reda", no qual ele conta tudo sobre como criou os folclores e influenciou tantos outros, a sua carreira em si. Não sei se é o livro todo, mas tem algo aqui: http://www.casbahdance.org/RedaInterview.htm

Ele também está listado no google books, mas não tem visualização disponível. :-(

Celia Daniele disse...

Via google tradutor:

"Reda Troupe

No capítulo sobre o Egito, Shay estabelece o conflito dos egípcios para a "dança do ventre", não com o Islã, mas com o resultado da colonização britânica. O Islã não encarava os movimentos como vergonhosos, mas a ganhar a vida exibindo o corpo. No entanto, os colonos tinham dificuldades com o próprio movimento. O puritanismo vitoriano foi absorvido pela sociedade egípcia. As classes superiores adotaram atitudes e de moral inglesas junto com a uma educação ocidental, e isso os separava do "atraso oriental" da plebe.

Isso levou ao desenvolvimento de uma tradição inventada, na qual as danças eram expressões do que o Egito deveria ser. Magda Saleh encontrou a forma mais comum de dança, para homens e mulheres, em todo o Egito, o solo improvisado com articulações do tronco especialmente ombros e quadris, basicamente "dança do ventre". Mas Reda encenou danças em grupo que nunca existiram e higienizou o vocabulário de movimento. Onde os homens normalmente faziam dança do ventre - o que era inaceitável - Mahmoud Reda criou uma dança baseada em movimentos de trabalho para o palco."

Fonte: http://www.raqs.co.nz/articles/choreographic_politics.html

Agora quero ver as defensoras que a dança do ventre é puramente feminina aparecerem aqui! Rá!

Então gente, a dança do ventre não é milenar, ela é criada e recriada ao longo do tempo, e hoje dançamos outra recriação dela.

Elaine Keite disse...
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