segunda-feira, 19 de abril de 2010

Profissão: Dançarina do Ventre

Este post é mais um desabafo. Por mim e por tantas outras meninas que possuem talento, mas não possuem meios para se estabelecer no meio da dança do ventre. Vemos dançarinas aparentemente bem sucedidas, mas quanto elas ralaram para chegar até lá? Ou quanta ajuda receberam? Fazer da dança do ventre uma profissão parece algo extremamente difícil, mesmo para quem realmente possui talento.

Primeiramente, a concorrência é desleal. Meeesmo! Não é difícil encontrar "plaquinhas" pela cidade com escolas de dança do ventre, e menos ainda difícil constatar que a professora tem o mínimo de preparo para dar aulas. Novamente: não é só aprender meia dúzia de passos, que se estará apta a dar aulas! Já li e ouvi dançarinas que se colocam como professoras e julgam as regras da dança para os ritmos e folclores como ditadura cruel e insensível, e não como uma leitura cultural! Elas não conseguem entender que dança do ventre não é uma massa pronta, como se fosse só colocar uma música árabe - qualquer uma - e dançar os mesmos shimmies, camelos e redondos, pois não é! Cada música tem uma expressividade e provém de uma região, com ritmos, passos, estrutura diferentes! É a mesma coisa que pensar que o mundo árabe é uma coisa só, cheio de terroristas, odaliscas e mulheres de burka! Forró não é Samba, da mesma forma, Soudi não é Saidi!

Ao lado dessa concorrência desleal, as potenciais alunas vão procurar escolas perto de suas casas ou do trabalho, e raramente vão procurar uma escola que tenha uma professora reconhecidamente boa. Esse quesito de "boa qualidade" também é falho, pois quem vai dar tal referência? As amigas da professora, suas alunas, seus parentes? Professoras bem preparadas "disputam" alunas no mercado com qualquer uma que se diz dançarina do ventre, e elas são muitas, muitaaas mesmo!

Outro fator: capital. Algumas dançarinas, com o apoio de seus familiares, ou até mesmo por terem adquirido um capital razoável com anos de trabalho em alguma outra profissão, conseguem adquirir sua própria escola, o que muda em muito a questão: ela ganha pelas alunas, e pelo aluguel do espaço para outras professoras. Muitas vezes esse "espaço" é dentro da casa da própria professora, ela pega a garagem, a laje, qualquer espaço grande, e transforma numa sala de aula, revertendo todo o ganho para si. Mas quem não tem? Vai dar aulas em academias, escolas, clubes, onde no mínimo 40 % da mensalidade fica com o dono do espaço. Dependendo do número de alunas, isso pode ser contornado, mas na maioria das vezes é muito trabalho para pouco retorno.

O que cai em: sustento! Quantas dançarinas realmente vivem de dança? A maioria das professoras faz disso seu segundo emprego, e muitas vezes, não o principal. É sair do trabalho, e entrar no outro: a sala de aula. Amor à arte? Com certeza! Por causa da grande concorrência de escolas de dança do ventre, a mensalidade precisa ser atrativa, não é mesma coisa que pole dance que possui poucas escolas, e realmente não é todo mundo que pode fazer: em média se paga 4× mais para aulas que são reconhecidamente "profissionais" (como pole dance), do que na dança do ventre, que qualquer um faz o carnaval que quer.

Assim, eu fico pensando: o que será da dança do ventre? Ou que já é... Existem avaliações que buscam provar o potencial e/ou o profissionalismo da dançarina, mas algumas vezes essas avaliações ficam presas a estilos da moda, algo que sabemos que a dança do ventre não se prende! Uma aluna da mesma escola pode ter um vocabulário e uma expressividade bem diferente de uma colega que estuda com ela no mesmo período, essa é a vantagem e a minha admiração por este estilo: ele se molda ao corpo da dançarina, à sua personalidade. Creio que essas avaliações devem ser enfatizadas e expandidas, mas pensando a qualidade técnica, não se o passo é mais contido, ou mais solto, se o braço é reto que nem um pedaço de madeira, ou flexível como um bonecão do posto (não gosto de ambos). Acho que a avaliação deve se focar no conhecimento teórico e na aplicação deste conhecimento na dança, não se a interpretação agrada ou não o gosto pessoal. É difícil realmente separar essas duas coisas, a avaliadora não é neutra, mas acho um bom começo para que tenhamos realmente profissionais na dança do ventre, oferencendo aulas de qualidade, formando alunas que respeitam a carga cultural e heterogênea que é esta modalidade, e não deturpando e estereotipando mais e mais esta arte, relegada a qualquer buraco de gente aproveitadora.

Querida Vivi, espero te ver tão logo pelos palcos da nossa amada dança do ventre!

14 comentários:

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Viver de arte no Brasil realmente deve ser difícil. Minha ex-professora vive de dar aulas de dança do ventre e parece ganhar relativamente bem, mas além de talento ela também contou com um pouco de sorte. Nasceu numa família classe média alta e de mente mais aberta que a de muitos. Aos 18 anos quando ela falou que queria seguir esse caminho, a família podia e deu a maior força. Ela estudou com vários nomes reconhecidos (e que não devem cobrar barato), o pai reformou parte da casa para que ela montasse sua escola e por ser uma cidade pequena, como concorrência só tinha as aulas em uma academia e com a mensalidade bem mais cara... Outra sorte que ela deu: três meses depois de aberta a escola, começou a passar O Clone na televisão... Aí a escola lotou...

Bjus

Natasha disse...

Olá!
Tudo bem?

Amei seu post!
Realmente a profissionalização na dança do ventre é um assunto delicado. Muitas bailarinas acham que podem dar aula, sem o mínimo de instrução, conhecimento da dança e cultura árabe, enfim, é assustador, pois assim será cada vez mais difícil da dança do ventre ser levada a sério.

Beijinhos!

livia disse...

Esse assunto é delicadíssimo. Quando me fiz a pergunta do que era necessário para ser uma bailarina de dança do ventre profissional, descobri que eu não tinha a resposta. Então corri atrás de um monte de gente e qual foi a minha surpresa quando descobri que ninguém tem essa resposta, nem as profissionais e as vários selos que existem por aí. Não há um tempo mínimo de estudo, uma carga mínima de conhecimento e muito mesmo uma avaliação como a prova da Royal (ballet) por exemplo. O que se tem são muitas opiniões e muitos palpites, mas nada de concreto. As avaliações são 90% compostas de bobagens e a maioria dos avaliadores só aprova quem dança na sua forma. Isso é inadmissível. Para mim, um profissional tem que ter uma técnica respeitável, tem que aprender o máximo possível sobre a dança e sobre o povo árabe e acima de tudo, tem que ter senso crítico e não sair por aí como se fosse papagaio dessa ou daquela bailarina. Mas acho que a dança do ventre ainda está longe disso. Vamos estudar mais e deixar os aproveitadores de lado. Mais cedo ou mais tarde eles se cansam.

Celia Daniele disse...

Oi meninas, obrigada pelos comentários! Olha, a dança do ventre realmente não tem uma receita de bolo, mas existem certos parâmetros que são indispensáveis, e é neles que estou me baseando. Por exemplo, conhecimentos de ritmos! O ritmo se atrela muito a uma determinação região (Egito, Arábia Saudita, etc), então a leitura dele tem uma coerência, não é simplesmente saracotear. Folclore e os instrumentos musicais também seguem a linha dos ritmos, e por fim vocabulário de dança é também importante, pois é algo que se obtém com estudo e empenho, um diferencial de qualidade. Agora forma de dançar tudo isso, não tem! Meia ponta alta, leveza, emoção, carão, tudo isso é relativo, depende da personalidade da dançarina. Isso é importante não confundir!!!! A dança do ventre se molda ao nosso corpo, o que não podemos é ignorar ou assassinar a música, os instrumentos, os ritmos, o folclore, toda a carga cultural que é inerente a esta arte!
Fico pensando se todas nós valorizássemos esse tipo de conhecimento, talvez não tivéssemos que "conviver" com tanta gente 171 na dança do ventre, mas quem sabe as pessoas começam a abrir espaço realmente pra quem tem talento e conhecimento. Enquanto isso, vamos levando como podemos o nosso amor pela dança, sendo bem-sucedidas financeiramente ou não...

Pole Dance Brasil disse...

olá Celia Daniele,

Cheguei aqui pelo pole dance que você comenta em seu texto.

Porém as suas reclamaçãoes acredito que se reflete em qualquer meio cultural e artístico com regras não tão bem regulamentadas. Acredite isso não é apenas "privilégio" de vocês...

Porém o que conforta é que se você faz um bom trabalho, sério e honesto, pode ter certeza que você terá seu reconhecimento.

Não fazer nada é deixar que os ruins prevaleçam, então continue sempre o seu trabalho. Tem um ditado que sempre uso é "se não posso falar nada de bom de alguém é melhor não dizer nada".

abs

George

Virginia Njainne disse...

Concordo plenamente com o que você diz em seu texto e principalmente porque nesse momento, como você sabe, estou exatamente nessa situação. A dança do ventre não me sustenta (infelizmente) e embora eu tenha o maior amor do mundo por isso e quisesse viver apenas disso, não pude! Lamentavelmente tive que começar a trabalhar (em outra área que não a dança), e pra piorar o meu horário de trabalho bate com o horário das minhas turmas de dança. Mas acredito que com esforço a gente alcança pelo menos um mínimo e nesse caso o carinho das alunas vale por toda a falta de dinheiro do mundo! e isso tenho plena certeza! Aliado a isso ainda há o prazer de dançar e isso ninguém nos tira!!! Dinheiro nada tem a ver com isso!!
Que bom! :)
Beijos a todas

Hanna Aisha disse...

Acho que o quadro realmente seria muito melhor caso todas as "professorecas", as quais costumo chamar desaparecessem da cidade.

É uma concorrência atroz e talvez muitas mulheres não precisariam estar com dois trabalhos (como eu) para se sustentar.

Mas como a Virgínia falou, o que realmente faz a gente se manter são as alunas. Que nos orgulham tanto!

Beijos

zainab disse...

Lindo seu comentario, sabe hoje muitos "dançarinas de dança arabe se preocupam em subir pisando as demais, pensam que arte e fazer um clubinho onde muitas dançarinas com muito talento ficam de fora, eu mesma tenho um exemplo de uma bailarina que dança a 12 anos e so agora ta começando a ser conhecida, porque sempre foi boicoteada. Eu gostaria muito que voce escrevesse algo sobre a inveja que muitas balarinas tem e acabam prejudicando as demais.Felicidades.

Celia Daniele disse...

Zainab, inveja é um tema delicadíssimo!!! Adorei, huahuhau! Ainda mais se eu contar por cada perrengue por causa de inveja! Eu cortei meu cabelão por causa disso, acreditem se quiser!! Eu acreditava numa certa pessoa que na verdade estava tentando me destruir, tudo por inveja...
Vou pensar direitinho para escrever sobre esse tema, e parabéns a quem não desistiu em doze anos de luta e agora brilha na dança do ventre!

Anônimo disse...

Realmente tem professora que praticamente , tenta impedir de as alunas evoluir. há não ser que seja pro seu proprio benificio.Mas cada pessoa e única e tem estilo ,proprio eu tenho o meu.A dança do ventre é uma arte, eu sempre serei uma eterna estudante.Jamais desistam do seus sonhos , sem ao mmenos tentar realiza-lo. Tenha fé em Deus!

Anisah Parvaneh Bellydancer disse...

Acho complicadíssima essa questão e me pego pensando nela se não todos os dias, dia sim dia não. Já vi que os mesmos problemas acometem as bailarinas do Oiapoque ao Chuí (pra não dizer mais...). Como definir quem está apto a dar aulas? Uma vez me perguntaram isso e eu respondi: "o bom senso". Mas bom senso não se compra em farmácia e, tendo aulas de dança do ventre em qualquer esquina, como as meninas que pela primeira vez estão procurando as aulas vão saber se essa professora é qualificada ou não se elas não têm a mínima referência? Na minha cidade não tinha dança do ventre e a professora vinha de fora... bom pra ela que não tinha concorrência e pra nós que caímos nas mãos de uma pessoa que sabia o que estava fazendo. Ainda bem! Mas poderia ter sido um desastre. Claro, que com o passar do tempo e com as informações mais facilitadas a gente pôde escolher o que gostava e o que não gostava. E hoje em dia temos muuuita informação, especialmente na internet. Mas aí surge aquele segundo problema como vc bem colocou: desvalorização da hora/aula, academias e escolas pegando 60% da mensalidade da aluna, e escolas disputando alunas a unha. Sem falar da falta de reconhecimento da profissão e de um mínimo de regulamentação, de treinamento, preparação, vocabulário e passos, como existe em outras danças. Aiii são tantas questões... precisamos nos unir para tentar achar a saída. Alguma sugestão? Parabéns pelo post!

Melissa Souza disse...

Eu concordo.
Quando pequena, só conhecia a Dança do Ventre através das mulheres que iam nas escolas públicas para dar aulas. E as apresentações eram tão ridículas que eu formei um preconceito ridículo com a dança.
Mais tarde, exatamente em 2010, comecei a fazer aulas com uma mulher que sacava tudo da história/cultura/origem dos ritmos e tal. Fiquei encantada. Mas na prática, era desse jeitinho: um monte de passos para você encaixar nas músicas e fim.
Foi depois que passei a usar internet como meio de conhecimento, tornando-me leitora desse blog e frequentando muito o Youtube que fui começar a entender o eu fazia e amava.
Hoje eu estou fazendo aulas numa academia, mas pelo que percebi a professora é formada em educação física e dança de salão, ou um treco assim. Ainda assim, ela parece gostar muito de Dança.
Minha primeira professora dava aulas por dinheiro, que eu sei.
Já minha atual professora faz isso por amor mesmo, afinal ela não tem necessidade de trabalhar. É uma típica dona de casa sustentada pelo marido.

Beijocas,
Melissa

Ciane disse...

Faço aula há muitos anos,me divirto,mas sei que nunca"vou dar para a coisa" . Ganhei em graça,postura alegria e até condicionamento físico.Pena que muita gente não tenha o mesmo bom senso que eu,que ,embora ja possa até criticar o que é certo e errado ,sei que esse conhecimento de 10 anos de aula 1 x por semana não me qualificaria nunca para dar aulas.Fico triste quando começo com uma boa professora que , de repente ou pára de dar aulas ou vai para um ponto da cidade inacessivel ou desconfortável de segui-la, e nem sempre possuimos dinheiro ou espaço para aulas em casa. e quando trocamos de professora, por vezes esbarramos com coisas "doidas" que , apesar de dançarem lindamente para si,não tem noção de didática e de técnica de ensino... e dá-lhe siga a bolinha!!!grrrr...

Anônimo disse...

Olá boa tarde, sou portuguesa e frequento aulas de dança do ventre duas vezes por semana já há 7 meses, além de pesquisas e treinos de alulas online. Recentemente fui convidada para integrar um grupo de dança do ventre. Fiquei de fazer 3 espetaculos em um hotel. Fiz o primeiro na boa sem perguntar se iria receber algum retorno financeiro pela experiencia, pois seria o meu primeiro espetaculo apos meses de aprendizado. Acontece que fiz o segundo ontem e continuo sem ter coragem de perguntar sobre o assunto pois tenho receio de ser posta de parte e amo fazer esta arte.
Soube recentemente que teria de adquirir mais um vestido e leques por 70 e tal euros se quisesse entrar em mais coreografias do show.
Devo de esperar receber algo, sendo bailarina iniciante amadora ou não tenho mesmo direito a receber por ser novata ?
Sei que é dificil mas prentendo evoluir mais nesta dança e gostaria de trabalhar mesmo nesta área.
Obrigada pela atenção. Beijinhos esvoaçantes e bons shimmys para vocês.

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