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quinta-feira, 7 de março de 2013

A Vida no Harém


Pessoas, dica da Lívia que encontrou a revista fisicamente, eu achei no site da Revista de História da Biblioteca Nacional o link da matéria "Nem tão eróticas", escrita pela historiadora, mestra e doutoranda em Estudos Árabes na USP, Marina Soares (gente finíssima, sempre me ajudando na minha pesquisa).

Para ler o artigo, clique aqui.

Marina desfaz vários mitos a respeito do harém e das odaliscas, especialmente quanto à ideia de um local de prazer e erotismo superexplorado.

Espero que gostem!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Crônicas de uma Dançarina do Ventre - Episódio 3

Era uma apresentação inédita para a maioria das alunas: todas iriam dançar e tocar snuj com música ao vivo. Os egos estavam inflamados! Egos estavam explodindo, para dizer a verdade...

Ensaiamos no palco, nos posicionamos no palco, chegou na hora, cadê que no palco dava todo mundo? Esqueceram da banda, dos milhares de fios passando em cima, das cortinas!! Oh meu Deus, pequenos detalhes, maaas, a vaidade de algumas bailarinas teria que ser sacrificada: elas iriam para o chão!

A notícia não chegou a todas, um seleto grupo de dez bailarinas, que não desgrudavam da dançarina-mor organizadora da festa, tomaram ciência e decidiram por todas que elas permaneceriam no palco e as demais pobres mortais iriam para o chão. Fácil, não? Sim, se não fosse a cena que se passaria nos próximos capítulos.

Eu sempre sou a última a saber, dom da minha distração, fui arrumadinha esperar a entrada no palco, estranhando ter poucas pessoas lá, quando sou avisada com a música começando a tocar que meu lugar era na chóóón. Saí correndo para não perder a apresentação, com a saia esvoaçante digna de ensaio sensual da VIP, mas não antes de ver o show à parte de uma dançarina, que chocada com o lugar que a designaram, dizer que o palco era para ela, porque ela era uma estrela (ah, esqueci o nome dela, ops).

Passamos a dançar, com A Estrela do meu lado sorrindo tão forçadamente, que seu aparelho dental brilhava mais que a roupa. O chão ficou lindo, de várias cores, dançarinas felizes  - em sua maioria -  e bem posicionadas, dançando a coreografia com desenvoltura. O palco... Bem, se ao menos as dançarinas conseguissem esticar os braços ou as pernas sem esbarrar uma na outra! Êta estrelismo! Quiseram tanto o palco que mal conseguiram se mover no mesmo, deixou a magia da apresentação para quem estava no chão.

A apresentação acabou, vimos os vídeos e as fotos, quase todos mostrando as alunas que ficaram no chão. E tenho certeza que a maioria delas não se importou por não estarem no palco, elas estavam se divertindo!

Por isso digo: isso é ser esperta?
A graça está na dança, sem mais!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Como a Imagem do Mundo Árabe é Deturpada!

Existe um documentário fantástico sobre como os árabes são mostrados de forma estereotipada e preconceituosa nos filmes de Hollywood, que preciso compartilhar aqui com vocês! Sério, eu lembrei de várias pessoas que encontrei na dança do ventre que pensam nos árabes como aparecem no filmes. Os pontos mais interessantes:

1 - A "Arabialândia", a terra de todos os árabes. É engraçado que não existem traços culturais, idiomas, distinções quaisquer entre os árabes que são árabes e acabou. É um enorme deserto do Saara!

2 - Os árabes ou são vilões ou são estúpidos, na maioria dos filmes. Eles são lascivos, sujos e tratam dinheiro como se fosse uma coisa banal.

3 - Lembra do Alladin? Eu criança não conseguia perceber com crítica esse filme, até meu orientador Murilo Sebe apresentar suas considerações sobre o filme numa palestra na Casa Rui Barbosa: Alladin não tem cara de árabe! As feições dele foram tiradas do Tom Cruise!!! Quem tem cara de árabe no filme são os vilões, e sempre de forma forçada, narizes enormes e kohl nos olhos.

4 - A questão Israel-Palestina tira toda a humanidade dos palestinos! Levanta a mão quem já ouviu (e bata na cara se concordou) que os árabes são violentos e se explodem por aí sem motivo, apenas porque essa é a linguagem deles: o terrorismo.

5 - As mulheres árabes são retratadas ou com niqabs, cobertas dos pés à cabeça com panos negros ou como dançarinas do ventre, parece que toda casa árabe é uma tenda no meio do deserto com dançarinas. E claro, os árabes ainda copiam a "sultão life style" e têm escravas sexuais. Típico!!

É longo o documentário, mas tenho CERTEZA que quem o vir só tem a ganhar:

domingo, 9 de setembro de 2012

Salomé de Oscar Wilde

Essa semana comprei um livro bem famoso (na verdade é uma peça) para iniciar minha pesquisa acadêmica oficial sobre o Orientalismo: Salomé de Oscar Wilde.

O livro trata da paixão doentia de Salomé por João Baptista (este retratado como Yokanaan), que a rechaça veementemente. No final, Salomé faz a dança dos setes véus (imaginário europeu) e sob juramento do rei Herodes consegue em troca a cabeça de seu amado, realizando assim um desejo sombrio, o qual também selaria seu destino.

Achei interessante por abordar uma Palestina repleta da entrega à concupiscência e à beleza física, uma crítica à própria sociedade hedonista em que Oscar Wilde vivia, a Inglaterra do séc. XIX. A peça foi ojerizada e massacrada pela crítica, atacando ferozmente o trabalho de Wilde sem dó, nem piedade. Na verdade é exatamente assim como a maioria das pessoas ignorantes fazem, criticam e jogam pedras sem conhecer aquilo que falam. A sorte de muitos é que a obra de Oscar Wilde seria lida e relida por mentes tão brilhantes quanto a dele e se tornaria um grande sucesso.

A peça de Oscar Wilde foi adaptada para uma ópera por Richard Strauss, tendo o momento mais impactante da mesma a famosa dança dos sete véus. Aqui abaixo a música:



segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Como era a Dança do Ventre no início do Séc. XX?

Olá pessoas,

A Juliana Nogueira fez um compilado de vídeos antigos, por volta do final do séc. XIX e início do séc. XX mostrando dançarinas orientalistas, isto é, as primeiras dançarinas do ventre ocidentais (dançarinas/artistas que se inspiravam no Oriente para compor um estilo novo de dança: a dança do ventre). 
Tem até uma mulher girando com uma cadeira presa aos dentes! lol


Sobre o valor histórico dos vídeos (se eles representam uma arte genuína ou não), acho interessante um comentário que consta no link do vídeo:

"Autêntico? Você pode citar qualquer forma de arte que não tenha se alterado ou se modificado ao longo dos anos no tempo? A dança é uma forma de arte e muda conforme a cultura e as pessoas que a executam. Só porque ela é diferente de outra maneira já feita não a torna "não autêntica", apenas um estilo novo. Se ela se adapta ou não ao seu gosto é algo pessoal. Mesmo no Oriente Médio, há muitos estilos diferentes de dança do ventre. Se todos fossem para realizá-la exatamente da mesma forma seria muito chato."

segunda-feira, 12 de março de 2012

Falando sobre Orientalismo...

Amadas adoradoras do conhecimento que seguem esse blog e tantos outros! Pensando sobre essa questão do Orientalismo, encontrei um artigo da saudosa Luana Mello explicando o que ele é e sua relação com a dança do ventre. Achei interessante compartilhá-lo com vocês.

Antecipadamente, fazendo um comentário sobre as impressões que ela teve quanto ao livro do Edward Said e o da Wendy Buonaventura, os dois que se usam no meio da dança do ventre como conhecimento do Orientalismo, ela falou algo que me caiu uma ficha muito grande: que a Buonaventura possui uma visão positiva do Orientalismo, diferentemente do Said. Gente, quem é a Buonaventura?! Uma americana que se propôs a estudar o exótico oriente e mostrar a conexão da dança do ventre com a deusa Ísis! E quem é Edward Said? Um ensaísta palestino formado em Harvard que viveu em ambos os lados, Oriente e Ocidente, e virou referencial teórico a diversos pesquisadores do Oriente. Acho que comparativamente estamos lidando com uma estrangeira defensora de uma visão esotérica do Oriente ao lado de um estudioso que é voz deste mesmo Oriente, onde nasceu, cresceu e teve suas raízes, que lutou pelos direitos da Palestina e pelo fim do preconceito sobretudo contra o mundo árabe. Acho que cabe aqui o pensamento do dia do Khaled Iman, em seu facebook: algumas pessoas acham que sabem mais sobre uma cultura do que quem vive no local e faz parte da mesma.

Vamos ao artigo! Ah, alguns pontos que ela levantou pretendo discutir em outros posts. Aproveitem:

Já que estamos falando tanto de história da dança e das alterações que arte sofre quando sai do seu contexto histórico, precisamos falar sobre o Orientalismo, uma febre que conhecemos pouco no Brasil. O orientalismo nos ajuda a entender a história e a trajetória da Dança do Ventre no Ocidente.

O que é Orientalismo?

O Orientalismo começou no final do século XVIII, mas seu auge aconteceu de meados do século XIX até o começo do século XX. Foi um movimento generalizado de artistas e estudiosos que estudavam o que eles denominaram de 'Oriente': Índia, Ásia Central, Extremo Oriente e Médio Oriente - este último que recebeu então o nome de países árabes. Há quem atribua seu início a expedição napoleônica, rumo ao Egito em 1799.

O Orientalismo foi movido por uma nostalgia que envolveu os ocidentais. Eles voltaram sua atenção aos países do oriente, que ainda 'viviam no passado', mas de forma supérflua e cheia de preconceitos. Eles viam esses povos como atrasados e subdesenvolvidos, prontos para serem colonizados. Tinham uma curiosidade pejorativa, e tratavam os povos orientais como primitivos e "portadores de uma cultura engessada que não evoluiría com o passar dos anos".

Mas, no ocidente, a falta de entendimento e respeito para com a cultura de outros povos é um costume. O Orientalismo foi mais uma febre que mostrou preguiça em conhecer profundamente a cultura oriental. Tudo então virou 'exótico'. O Orientalismo foi o maior responsável pela visão deturpada e limitada que temos dos povos orientais e seus costumes.

As idéias montadas pelos visitantes ocidentais, se tornaram febre na Europa e principalmente nos Estados Unidos. Uma avalanche de livros, poemas, quadros, músicas e danças que vendiam a imagem de um oriente que não existia. A visão 'romântica' do Oriente injetada por quase um século no imaginário coletivo, é algo tão incrustrado na nossa cultura que nos impede, ainda hoje, de enxergar o oriente de forma mais realista.

Edward Said, autor do livro Orientalism, define essa cegueira como "o oriente visto não como ele é, mas sim, como ele foi Orientalizado." E ele vai mais longe, em seu livro, ele afirma que os próprios orientais - a geração do século XX, pós Orientalismo - se vê influenciada pela definição ocidental de oriente.

Nossa falta de entendimento e interesse sobre esses povos faz com que limitemos os orientais (principalmente os árabes) a: perigosos, loucos, exóticos, misteriosos e enigmáticos.

O Orientalismo e o Baladi

Quando os orientalistas se aproximaram da dança árabe feminina - o Baladi, se surpreenderam. As bailarinas eram procuradas como mais uma atração bizarra, mas a dança Baladi, com seu erotismo delicado e movimentos sensuais, era diferente de tudo o que eles já tinham visto. Nos Estados Unidos do século XIX as mulheres ainda dançavam na ponta, de forma etérea e os primeiros vestígios da dança moderna estavam acontecendo.

Encontrei essa foto em alguns sites da internet como sendo de Kutchuk Hanem, uma das bailarinas baladi mais importantes do século XVIII, porém a internet nem sempre é algo confiável! Se alguém souber, afirme para nós!

Como a profissão de bailarina nos países árabes tinha má fama, mulheres 'de família' não dançavam. A dança sobreviveu por muitos anos nos cabarés, sendo executadas por prostitutas ou mesmo bailarinas que eram marginalizadas também. Com essa parte da história, nós conseguimos entender por que a Dança do Ventre (até então o Baladi), até hoje carrega o tabu de ser uma dança vulgar.

A imagem e importância de uma bailarina, está sempre associada com a posição da mulher na sociedade em que sua dança está inserida. Enquanto Duncan, Ruth St. Dennis, Maria Sallet e outras bailarinas americanas e europeias foram heroínas e revolucionárias, respeitadas pelos mais altos níveis sociais (há quem conteste essa colocação), as bailarinas árabes eram a escória da sociedade.

Por isso, em meados so século XIX - precisamente - desde 1834, segundo Wendy Buonaventura - as bailarinas egípcias estavam sendo exiladas. Com a febre do Orientalismo elas foram em massa para os Estados Unidos e países europeus. Na Europa o Orientalismo não foi tão forte, ele competiu com as novidades trazidas pela Revolução Industrial.

O Baladi então tomou os Estados Unidos e estava presente em shows, eventos, reuniões e cafés. A grande atração da época eram as bailarinas exóticas vindas do oriente. É nessa época que começa a ocidentalização da dança que transformou o Baladi, na Dança do Ventre que conhecemos hoje.

Uma pausa na história: Os orientalistas deixaram resumos muito fantasiosos sobre as apresentações do Baladi nos países árabes. O Baladi - que nos Estados Unidos acabou conhecido como Bellydance (Dança do Ventre) - é praticamente ocidental. Existem especialistas - como eu já ouvi do próprio Yousry Sharif - que afirmam que a Dança do Ventre que chamamos de Egípcia é na verdade, americana com toques de Baladi.

O ocidente comercializou a dança Baladi para torná-la mais atrativa. Esse fato desvalida os argumentos desesperados de bailarinas que pregam a essência da Dança do Ventre Egípcia acima de qualquer crítica. Não podemos afirmar que a Dança do Ventre que aprendemos hoje seja parecida com sua origem. O que nós aprendemos já é uma deturpação, então, qual o fundamento em manter essa discórdia a cerca o que 'é ou não Dança do Ventre'?

Voltando...

A Dança do Ventre

As bailarinas árabes que dançavam nos Estados Unidos não tinham técnica. A dança Baladi era intuitiva, passada de geração para geração, sem registros manuscritos muito menos visuais. Quando a Dança do Ventre - como então havia ficado conhecida - ganhou fama, chamou a atenção de bailarinas profissionais e deu-se o começo da mais importante revolução da dança árabe.

Profissionais renomadas e vanguardistas aplicaram na Dança do Ventre as técnicas de Ballet e Dança Moderna. Ruth St. Dennis foi a representante mais forte, a consagradora da Dança Moderna, gostava de colocar em suas danças movimentos de outras culturas e encontrou na Dança do Ventre uma de suas paixões.

Ruth St. Dennis é a maior responsável pelas imagens estereotipadas que temos de bailarinas árabes. Como era muito influente nos Estados Unidos - a primeira dama da dança americana ditava moda. As próprias bailarinas árabes se influenciaram com seu estilo e foram procurar as técnicas de dança moderna para melhorarem suas performances, já que as profissionais de outras áreas estavam ganhando mais espaço.

Outras bailarinas também tiveram influência do Orientalismo no seu trabalho, entre elas, Isadora Duncan, Martha Graham e Doris Humprey. As duas últimas alunas da escola Dennishaw, de Ruth St. Dennis e seu marido Ted Shaw.

Palavras de Wendy Buonaventura, em seu livro The Serpent of the Nile: "Como todas as formas de arte, trazidas para fora de seu contexto cultural e oferecida comercialmente, ela perdeu algo de seu espírito essencial, assim como sua integridade de forma." Ouso acrescentar a essa frase, que em meu ponto de vista, não apenas perdeu, também ganhou o mundo e se adaptou ás outras artes então existentes.

Todas as danças do mundo passaram por esse tipo de transformação e a Dança do Ventre foi apenas mais uma delas. Deste ponto pra frente a dança passou a ser apresentada nos cabarés americanos e sofreu forte influência Hollywoodiana nas roupas, maquiagem, cabelo e até nos movimentos.

Quem já assistiu Gilda, com Hita Hayworth (lindaaaa!!!!) de 1946, consegue perceber resquícios de orientalismo em suas performances. O cinema egípcio também encheu as telas com bailarinas árabes já estilizadas com influências americanas. E o resto é história...

O mundo das artes é assim, nada é original, nem puro, nem está livre de miscigenações. A arte é livre e etérea, serve para comunicar códigos sociais ou apenas pessoais, mas não pode ser restringida a fronteiras geográficas. Nem nossas estrelas (Randa, Lulu, Soraia, Dina) podem sair por aí afirmando que fazem a Dança Tradicional, aliás elas não afirmam, nós é que costumamos afirmar por elas.

Sei que tenho batido muito nessa tecla, mas esse assunto é muito importante para nós que queremos olhar a Dança do Ventre como arte!

A dança é atemporal, aprisioná-la a datas e regras é excluí-la da eternidade.

Obs: Escrevi esse texto com minhas palavras baseada em livros lidos e aulas de aulas de história e filosofia. Existem muitas inexatidões sobre o Orientalismo. É bem provável que vocês encontrem divergências e contradições com outras fontes. Abaixo, cito dois livros que abordam o orientalismo de forma bem prática. O de Wendy Buonaventura é voltado à Dança do Ventre, ela tem uma visão mais otimista a respeito do Orientalismo. O de Edward Said é mais polêmico, pessimista e racional.

Fonte: http://www.dancadoventre.art.br/

domingo, 11 de março de 2012

Dança do Ventre não é Culto à Deusa!!!

Estou fazendo um alerta muitíssimo sério: cuidado com os workshops que rolam por aí de dança do ventre! Dança do ventre não é religião, nunca foi, ela é uma modalidade de dança com regras, estilos e ritmos próprios. Acredito que todas saibam perfeitamente disso, mas tenham cuidado para não encontrar pessoas "super gabaritadas" que vão soltar o maior papo de matriarcado e deusa-mãe para deturpar toda a ideia que a dança do ventre tem como arte.

Hoje eu tive uma prova inefável disso: meu pé torcido, beleza, fui num workshop de uma dançarina das antigas, que estava morando no exterior. Falaram tanto dela, e como era barato, me matriculei para fazer, mas ninguém sabia de nada do conteúdo do workshop. Eu até mandei mensagens pros organizadores, mas nada. Ok, pensei, ruim não deve ser, no máximo algo descartável. Eu tive foi uma surpresa bem desagradável!

Primeiro que, me irrita profundamente falarem de orientalismo sem saber o que é orientalismo! Gente, orientalismo está longe de ser uma coisa boa, é uma visão preconceituosa do Oriente, uma visão que pega várias culturas de diversos povos, países, e junta num saco só e diz: Oriente! Que imagina esses mesmos lugares como fantásticos, misteriosos, esotéricos, sendo que não são! É a visão do explorador europeu, que usava a argumentação de que o Oriente era primitivo para justificar a sua dominação.

E ora, ora, não é isso que a muitas dançarinas ainda fazem? A dança do ventre não pode ser cultura árabe ou mesmo uma construção ocidental, mas um culto à deusa-mãe na era do matriarcado (primitividade). Só que uma dança vista como parte da cultura de países islâmicos e cristãos, poderia ser uma dança pagã de culto à Deusa?! Cara, é claro, óbvio, que não!!! Se formos olhar a origem da dança de maneira geral, poderíamos dizer que TODAS as danças surgiram na pré-história e foram moldadas ao longo do tempo. Por que só a dança do ventre precisa ser algo primitivo? Tá na cara que é uma visão orientalista do Oriente! O Oriente primitivo, selvagem, sensual, esotérico, e por aí vai.


Também é sabido que a dança do ventre veio até nós por meio do orientalismo, e que ela surgiu no séc. XIX mais ou menos da maneira que a conhecemos hoje em dia. Mas já está na hora de superar isso, não? Está mais que na hora dela ser prestigiada como modalidade de dança e cortar essas amarras que a associam a uma imagem preconceituosa do Oriente, esquecendo e negando a cultura em que a dança se desenvolveu, que é a cultura árabe, e buscando uma origem totalmente nebulosa da pré-história. Além disso, todos podem ter a sua religião, mas divulgar como conhecimento científico e comprovado que a dança do ventre é um ato religioso, um culto à deusa-mãe - como ouvi hoje: "a minha deusa interior seduzindo você" ui - é falta de respeito! A dança do ventre não é ritualística e nunca esteve ligada a isso desde que surgiu no séc. XIX. Se antes havia uma dança ritualística, em quantas facetas ela se dividiu e como ela chegou até nós? Será o tango ritualístico? Ou o samba? Por que insistem na dança do ventre?

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Visão da Dança do Ventre no Mundo Árabe


Muitas pessoas ficam meio sem entender como nos países árabes, expostos pela grande mídia com aquelas mulheres sob burkas, política fundamentalista e "homens terroristas", poderia ter uma arte como a dança do ventre. Hoje vocês vão ter uma mini-aula de história contemporânea! :p

Primeiramente, o nome "dança do ventre" no mundo árabe não existe. "Dança do ventre" é uma criação francesa para designar a Dança Oriental, a Raqs Ash-sharqi. Logo, dizer que a dança do ventre é uma arte feminina porque só mulher tem ventre é a reprodução de um preconceito orientalista criado no séc. XIX. O termo "dança do ventre" acabou por abarcar não só a "dança das odaliscas", como também as expressões culturais de cada região, massificando num só nome estilos de diversas regiões e posteriormente países.

A dança oriental sempre esteve presente na cultura árabe, mas é claro que ela variava conforme o local que aparecia. A dança oriental que hoje chamamos de dança do ventre é em grande parte uma herança egípcia, e estava relegada aos círculos familiares, pouco aberta a grandes exposições. Esta dança foi completamente absorvida pelo Império Turco Otomano, mas nele ganhou outra conotação, passando a ser tanto uma prática familiar, como uma prática artística, na qual dançarinas e dançarinos se apresentavam em festas, eventos imperiais e até mesmo para receber chefes de Estado que visitavam o Império.

Dessa forma, a dança oriental teve uma grande expressão no mundo árabe, e posteriormente na época do Imperialismo, pelo mundo europeu. No mundo árabe percebemos a grande influência no Líbano, ainda que lá não seja tão marcante e característica quanto no Egito (o dabke é muito mais tradicional no Líbano que a dança do ventre propriamente dita), e também na Turquia, a atual herdeira do Império Turco Otomano.

Na época do Imperialismo, antes mesmo do fim do Império Turco Otomano, a França e a Inglaterra literalmente dividiram entre si as regiões árabes. Com a desculpa que as administrariam para se modernizarem (alguém lembra do caso do Iraque e do Afeganistão?), tomaram-nas como posses, o que gerou muitas revoltas, ocorrendo entre a década de 20 e 40 a maior parte das independências dos recém-países árabes, como a do Egito. Pra que estou contando isso? Essa presença ocidental é fundamental para a forma como a dança do ventre se moldará ao longo do séc. XX!

Sendo assim, vou me ater ao Egito para facilitar a visão deste momento. Ahhh, o Egito! A Inglaterra deu a independência ao Egito em 1922, mas quem disse que ela saiu de lá? A influência britânica foi extremamente forte até o início da segunda onda do nacionalismo egípcio na década de 50.

O que temos neste intervalo, digamos, entre as décadas de 30 a final da 40 na dança do ventre egípcia? Os famosos cabarés! Aqueles filmes de dança do ventre, pelos quais hoje conhecemos nomes como Samia Gamal, Tahia Carioca, etc? É literalmente a Era de Ouro da Dança do Ventre. Nessa época até mesmo eram poucas as mulheres que usavam véu nas cidades, como conta a escritora Nawal Saadawi no livro "A Face Oculta de Eva". Havia uma ocidentalização forte no Egito, a dança do ventre na maior parte das vezes era para entreter turistas, mas também era uma forma de exportação da cultura egípcia, algo que muitos egípcios valorizavam e tinham orgulho.

Bem, aí a coisa começou a mudar: a Palestina foi repartida para dar lugar ao Estado de Israel em 1948. Comoção no mundo árabe! Uma das explicações para isso ter acontecido foi o desvirtuamento da fé que os países árabe-islâmicos haviam se submetido ao absorver valores ocidentais. A dança do ventre começou a perder espaço gradativamente, o uso do véu começou a voltar com força nas grandes cidades, várias pessoas passavam a exprimir asco e revolta ante os valores ocidentais que antes se faziam presentes nos grandes círculos da sociedade. Os países árabes ainda tentaram retomar os territórios da Palestina, mas foram derrotados (espiões israelenses descobriram a tática de guerra deles pouco antes do confronto), o que gerou ainda mais essa necessidade de retorno à , aos verdadeiros valores islâmicos. Para piorar na Guerra dos Seis dias, em 1970 Israel invadiu e ocupou a Península do Sinai, território egípcio, que só foi devolvida através de um tratado de paz em 79. O que aconteceu então? Egito expulso da Liga Árabe, presidente assassinado por um fundamentalista, Egito na mão de Hosni Mubarak. O resto a gente conhece pelos noticiários...

Essa situação também é narrada no livro autobiográfico da dançarina egípcia Dina (Ma Liberté de Danser), que só tomei conhecimento depois de contar para a Lívia o que conto a vocês neste post, sobre a mudança da imagem da dança do ventre no mundo árabe. Essa volta ao conservadorismo aconteceu em todo o mundo árabe, até mesmo no Líbano que é cristão! A dança do ventre fora dos círculos familiares passou a ser vista como haram (ilícito), como uma importação e não com expressão da cultura egípcia, e até mesmo árabe!

Com o tempo, a tradição das dançarinas na vida cotidiana da sociedade egípcia deixou de ser comum. Ano passado, por exemplo, meu amigo Mohamad Khairy se casou com minha amiga Weasal lá no Cairo, e ele me convidou para dançar no casamento dele. Tipo: isso era tradição anos atrás!! Mas eu fiquei chocada e perguntei a ele se os convidados não ficariam incomodados, a resposta dele foi: "Não, mas eles vão estranhar. Só que eles sabem quem eu sou e como minha família é, e não vão pensar mal de mim e de minha esposa". Pensar mal por quê, né? Pois alguém já viu o vídeo de uma dançarina do ventre super over deixando a noiva morta de vergonha? As dançarinas divas que vemos por aí como Soraia Zayed, Dina, Randa Kamel, não dançam pro povo, baby, elas dançam pra ricaços e principalmente pros turistas.

Hoje em dia eu tenho as minhas dúvidas se a dança do ventre ainda vai ter espaço no meio de entretenimento egípcio. Se vocês não sabem, a maioria do parlamento eleita recentemente é da Irmandade Islâmica, e a intenção deles é instituir a charía como lei constitucional. A minha amiga Esraa de Alexandria diz que o Egito não vai virar uma Arábia Saudita, mas eu tenho minhas ressalvas. Ah sim, cabe lembrar que essa imagem que vemos na TV é super deturpada, homens-bomba, terrorismo, etc, nada tem a ver com uma volta à religião, a sua ação é totalmente motivada por uma questão política, e não religiosa (como vocês poderão entender aqui).

No entanto, a dança do ventre no meio familiar anda fortalecida no Egito. As mulheres andam de niqab na rua (aquele véu que só deixa os olhos à mostra), depois passam na Khan el Khalili (ou seus maridos), compram uma roupa de dança do ventre ou um xale de medalhas, e vão pra casa dançar! Eu mostro meus vídeos para elas, elas gostam, dão opinião, dicas, etc, a dança do ventre nesse ponto acredito que nunca vai morrer! Inshallah!

E aqui esse vídeo que acho ótimo para ilustrar a sociedade egípcia da era de ouro da dança do ventre:


O menininho dançando a la Tito Seif, as mulheres de pernas de fora e sem véu, roupas ocidentais, uma dançarina do ventre do povão beeem diferente do que vemos quando buscamos no youtube.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Você faz a dança dos sete véus?

Familiar, não? Pois é. Se você é dançarina do ventre, já deve ter ouvido pelo menos uma vez na vida essa pergunta. É só anunciar seus dotes artísticos para escutar de um mané engraçadinho: "Legal! Você faz a dança dos sete véus?" Geralmente, quem pergunta tem um olhar um pouco malicioso sobre a dança do ventre e está claramente imaginando um striptease.

A pergunta pode até causar surpresa, mas não podemos nos esquecer de como a história de Salomé está ligada à ideia que o mundo ocidental tem da dança do ventre. Se pensarmos bem, não deveria haver espanto algum: a lenda nos conta a história de uma mulher bonita, talentosa e... fatal (uhh!). Salomé daria uma ótima vilã de um filme do James Bond, não acham?

Sem mais delongas, resolvi buscar na internet algumas informações sobre esse mito. Assim, da próxima vez, a pergunta sobre a dança dos sete véus vai até te render um bom papo.

A lenda

Após um caso de adultério entre Herodias (ou Herodíade) e seu tio (ou cunhado) Herodes Antipas, ambos se divorciam de seus cônjuges para que possam se casar. João Batista protesta publicamente contra o casamento, em parte porque ambos eram divorciados e porque casar com o irmão do ex-marido era visto como incestuoso.

Herodes Antipas pressiona João Batista a parar com os protestos, mas não o condena à morte por temer represálias por parte das massas, que acreditavam que João era um profeta. Herodias detestava João pois ele condenava publicamente a sua união com Herodes Antipas, chamando-a de "casamento adúltero".

Herodias tinha uma filha chamada Salomé, de seu primeiro casamento, que morava com ela e seu novo marido em seu palácio.

Durante a festa de aniversário de Herodes, a jovem e bela Salomé dança para o marido da mãe e seus convidados, despindo-se de cada um dos sete véus até que não sobre quase nada (ou nada) cobrindo seu corpo. Herodes fica tão satisfeito com sua apresentação que faz um juramento solene na frente de todos os seus convidados: ele promete dar à jovem o que ela quiser. A pedido da mãe, Salomé pede a cabeça de João Batista. Embora Herodes não quisesse fazê-lo, sentiu que tinha de cumprir o juramento que havia feito perante todos. Assim, ele ordena que João Batista seja decapitado e sua cabeça entregue à Salomé.


O que a Bíblia diz

Mateus 14:6-11

Festejando-se, porém, o dia natalício de Herodes, dançou a filha de Herodias diante dele, e agradou a Herodes.

Por isso prometeu, com juramento, dar-lhe tudo o que pedisse;

E ela, instruída previamente por sua mãe, disse: Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João o Batista.

E o rei afligiu-se, mas, por causa do juramento, e dos que estavam à mesa com ele, ordenou que se lhe desse.

E mandou degolar João no cárcere.

E a sua cabeça foi trazida num prato, e dada à jovem, e ela a levou a sua mãe.


Marcos 6:21-28

E, chegando uma ocasião favorável em que Herodes, no dia dos seus anos, dava uma ceia aos grandes, e tribunos, e príncipes da Galiléia,

Entrou a filha da mesma Herodias, e dançou, e agradou a Herodes e aos que estavam com ele à mesa. Disse então o rei à menina: Pede-me o que quiseres, e eu to darei.

E jurou-lhe, dizendo: Tudo o que me pedires te darei, até metade do meu reino.

E, saindo ela, perguntou a sua mãe: Que pedirei? E ela disse: A cabeça de João o Batista.

E, entrando logo, apressadamente, pediu ao rei, dizendo: Quero que imediatamente me dês num prato a cabeça de João o Batista.

E o rei entristeceu-se muito; todavia, por causa do juramento e dos que estavam com ele à mesa, não lha quis negar.

E, enviando logo o rei o executor, mandou que lhe trouxessem ali a cabeça de João. E ele foi, e degolou-o na prisão;

E trouxe a cabeça num prato, e deu-a à menina, e a menina a deu a sua mãe.


Alguns detalhes merecem atenção:

*A Bíblia não diz que o nome da filha de Herodias era Salomé. O nome surgiu a partir dos escritos de Josefo, historiador e apologista judaico-romano.

*A Bíblia não especifica que tipo de dança ela fez e se Salomé usou véus, tirou a roupa ou fez algo no estilo sedutor. Tais interpretações da história vêm de outras fontes.


O texto original da Bíblia

De acordo com o artigo "God Belly Danced, Part III" de Qan-Tuppim, do site The Gilded Serpent, a palavra original grega usada no Novo Testamento para se referir à Salomé é korasion, que significa "menininha ainda não crescida o suficiente para ter seios ou menstruar". Já a palavra utilizada para a dança feita por Salomé no original é orxeomai, que não significa dança, mas algo como "brincadeira de criança". Baseado nisso, Qan-Tuppim conclui que Salomé era provavelmente apenas uma adorável menininha, a Shirley Temple de sua época.




Mas então de onde vem a tal dança dos sete veús?


Se a Bíblia não ligava a morte de João Batista a uma sedutora striptease envolvendo sete véus, de onde essas ideias vieram? E como elas se relacionaram com a Dança do Ventre?

No final da década de 1890 e na primeira parte do século XX, escritores e pintores do movimento de arte europeu conhecido como Orientalismo ficaram fascinados pelo Oriente Médio. Esses artistas viram na história de João Batista um prato cheio para suas criações, com todos os elementos que interessavam o público: conotações sexuais (a dança, que eles escolheram interpretar como sedutora), assassinato, política, adultério, e a conexão com a Bíblia que tornou, de certa forma, a história mais aceitável para ser contada numa sociedade conservadora.

Há ainda quem acredite que a Dança dos Sete Véus tem origem em um dos mitos de Ishtar, que conta a descida da deusa da mitologia mesopotâmica ao mundo dos mortos. Como curiosidade, fica aqui o conto:

"A deusa empreende esta jornada em busca de Tammuz, seu amado, que havia morrido em um moinho de grãos. No mundo dos mortos, Ishtar é obrigada a atravessar sete portais e a deixar, em cada um deles, um ornamento ou peça de sua vestimenta. [...]

Quando Ishtar ressurge dos abismos, a vida renasce na terra, os campos se cobrem de relva verde e nos rios volta a correr água abundante. A dança dos sete véus é por vezes associada a essa passagem da mitologia de Ishtar, sendo esta uma da mais famosos, belos e misteriosos ritos primitivos.

Esta dança não era praticada em ritos de fecundação como muitos acreditam; mas pelas sacerdotisas dentro dos templos da Deusa Egípcia Ísis; posterior à Ishtar mas com clara influencia cultural da mesma. A sacerdotisa oferecia a dança para a Deusa que dentro dela existe, e lhe da beleza e força.

Essa dança era realizada em homenagem aos mortos. As sacerdotisas, em seus templos, retiravam não só os véus, mas todos os adereços sobre o seu corpo, para simbolizar a sua entrada ao mundo dos mortos sem apego a bens materiais – neste caso, em uma clara analogia à Ishtar.

Determinada, Ishtar atravessou os sete portais do submundo, e em cada portal deixou um de seus pertences: um véu ou uma jóia (cada um deles representando um de seus sete atributos: beleza, amor, saúde, fertilidade, poder, magia e o domínio sobre as estações do ano). O véu representaria o o que ocultamos dos outros e de nós mesmos. Ao deixar os véus Ishtar revela sua verdade e consegue unir-se a Tamuz." (Trecho retirado de http://vinhoecigarros.blogspot.com/2007/09/deusa-ishtar-2000-ac.html)

A peça de Oscar Wilde

No outono de 1891, o dramaturgo irlandês Oscar Wilde escreveu uma peça intitulada Salomé. Em 1892, ele a mostrou a Sarah Bernhardt, que imediatamente quis organizá-la e interpretar seu papel-título. Eles ensaiaram, mas foram forçados a abandonar o projeto quando o governo britânico lhes negou a licença. Motivo: a peça violava uma antiga lei da era puritana que proibia a representação pública de personagens bíblicos.

Finalmente, em 1896, a peça foi produzida na França, que não seguia tais leis. Em 1902, a peça foi apresentada em Berlim, com grande sucesso.

A peça de Wilde retrata Salomé como uma personagem bizarra e um tanto malvada, que fica obcecada por João Batista, mas em seu script, pode-se notar que não há nada que especifique que a dança de Salomé deva ser sedutora ou que ela deva se despir de sete véus. Apesar disso, é possível que Wilde tenha instruído o diretor para que interpretasse o script dessa forma.


A Ópera de Strauss

Inspirado pela peça de Oscar Wilde, Richard Strauss, compositor e maestro alemão, compôs uma ópera baseada na história de Salomé. A ópera popularizou ainda mais a versão de Wilde para a história e promoveu uma espécie de apelo sexual, durante uma época sexualmente reprimida, quando a "arte" era o único veículo publicamente aceitável para retratar a nudez.


Enquanto isso, nos Estados Unidos...

Em 1893, a Dança do Ventre suscitou seu próprio escândalo na Exposição de Columbia, em Chicago (World's Fair). Os americanos assistiram chocados a dançarinas que mexiam o corpo de uma maneira que os espartilhos da moda local nunca tinham permitido (!). Um dos promotores do evento, Sol Bloom, chamou essa "dança escandalosa" de belly dancing (dança do ventre), e é com esse nome que a dança oriental é conhecida no Ocidente até hoje.

O Circuito de Vaudeville abraçou alegremente o interesse do público despertado pelo escândalo e criou sua própria interpretação da Dança do Ventre, chamada de "hoochy coochy". Nas décadas seguintes, esta acabou se tornando o striptease moderno.

Logo, os filmes de Holywood que se seguiram mostraram suas próprias interpretações de Salomé e contribuíram para construir a ideia da "Dança dos Sete Véus". Logo abaixo, Rita Hayworth como Salomé:



Na mesma época, Isadora Duncan experimentava as ideias do Oriente Médio para criar suas coreografias. Fã dos tecidos fluidos como a seda e o cetim, Isadora geralmente usava vestidos e lenços feitos desses materiais em suas apresentações.

Tudo isso acabou relacionando "dança do ventre" a "véus esvoaçantes" na cabeça dos europeus e dos americanos que iam ao teatro.


Mas então, alguém já fez realmente a Dança dos Sete Véus no Oriente Médio?

Como todos devem saber, no Oriente Médio, o véu era (e ainda é) uma peça modesta usada para proteger uma respeitável mulher mulçumana dos olhos curiosos dos homens estranhos. Seria inaceitável usar um "véu" como acessório em um espetáculo de dança. Ainda mais se a dançarina se despisse de sete veús até ficar completamente nua no palco!

Antes do século XX, as mulheres no Oriente Médio dançavam completamente vestidas e em trajes comuns, cotidianos. Não havia uma "roupa para dança". As dançarinas que se apresentavam em casamentos, festas de dias santos e outros eventos simplesmente usavam o mesmo tipo de roupa que as outras pessoas.

As casas noturnas surgiram no Egito e no Líbano na primeira metade do século XX para saciar a ânsia que os visitantes britânicos, franceses e outros europeus tinham de ver as dançarinas locais. Para atender às suas expectativas, as dançarinas começaram a adotar o tipo de roupa que Hollywood inventara: o conhecido conjunto bustiê-cinturão-saia. Mas ainda assim as dançarinas não faziam qualquer tipo de dança com véu.

Na década de 40, Samia Gamal entrou no palco com um longo tecido. Esta é considerada a primeira ocorrência registrada de uma dançarina "realmente" oriental usando um tecido do tipo como acessório de dança. Samia fez isso porque, na época, tinha aulas com Anna Ivanova (famosa bailarina russa), que sugeriu que sua aluna usasse o tecido para melhorar o movimento dos braços.

É importante ressaltar que nem Samia Gamal e nem as dançarinas egípcias que mais tarde seguiram seu exemplo se referiram a esses tecidos como "véus". Elas nunca se despiram deles durante uma apresentação. Em vez disso, as dançarinas egípcias seguram o tecido ao entrar no palco, giram com eles e o descartam antes de começarem a dança principal.


Conclusão


A "Dança dos Sete Véus" nunca fez parte das tradições do Oriente Médio e não é realizada por lá até hoje. Ela foi criada pela mente dos europeus e foi preservada graças à indústria do entretenimento. Porém, ainda hoje, o público em geral acredita que a Dança dos Setes Véus foi apresentada por Salomé a Herodes, ainda que a Bíblia nunca tenha dito isso. Graças à peça de Oscar Wilde, à ópera de Strauss e aos vários filmes de Hollywood que descrevem Salomé, a ideia parece realmente ter vindo para ficar.

Atualmente, muitas dançarinas têm criado releituras para a Dança dos Sete Véus e, é claro, não há nada de errado em usar de nossa "licença poética" para criar nossas próprias interpretações para esse mito. O processo criativo de buscar outras formas de se dançar com os sete véus e fazer uma apresentação ser vista como uma expressão artística, e não como um striptease ou mais uma repetição enfadonha de modelos já vistos, pode se tornar bastante gratificante para uma dançarina.

É importante que se conheça o contexto histórico em que essa dança surgiu, pois, dessa forma, saberemos também identificar que tipo de público vai responder bem a uma apresentação e que tipo de plateia vai achar tudo muito esquisito ou pensar que vai assistir a um striptease, sem valorizar a nossa arte.

A seguir, a interpretação da dançarina Najla al Hafsa para a Dança dos Sete Véus.



Fontes: Shira.net
Bíblia Online
Vinho e Cigarros
The Gilded Serpent

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O amor no Islã (E onde entra a dança do ventre...)

Bem, algumas pessoas me conhecem e sabem que o blog e a dança do ventre não resumem meu contato com o mundo árabe. Eu também não tenho ascendência árabe - que eu saiba - mas a minha pesquisa acadêmica é toda voltada para o mundo árabe, em especial para o mundo árabe medieval. Estou lendo atualmente sobre um autor que pouca gente conhece: Ibn Hazm. Alguém, alguém?! Não? Bem, encontrei algo muito legal no Hazmizinho que liga à dança do ventre, pelo menos no emaranhado de ideias que perpassam minha cabeça... Vamos aos fatos!

Ibn Hazm é conhecido por uma obra muito importante, "O Colar da Pomba", que trata do amor romântico. O que seria isso? O amor de se apaixonar, da "dor de cotovelo", do suspirar, do ansiar, da dor, o "amor de Camões", "Amor é fogo que arde sem ver, é ferida que não se sente", por aí! Sim, mas Ibn Hazm é anterior a Camões, ele escreve sobre esse amor no séc. XI, quando os ocidentais ainda ensaiavam um amor cortês (que é esse amor apaixonado), alguns estudiosos chegam a afirmar que esse tipo de literatura surgiu pela influência das obras islâmicas no mundo ocidental, sem querer desmerecer as trovas de amor da Alta Idade Média, é claro...

Bem, qual é a ligação com a dança do ventre! Quem eram as amadas dos homens? (Isso quando não eram homens mesmo, mas isso fica pra outra história). As amadas eram as escravas!! Elas possuíam mais liberdade que as mulheres livres, elas saíam às ruas, andavam sem véu, elas que dançavam também. Claro, não posso dizer que a dança do ventre era praticada em Al-Andalus (terra do Ibn Hazm) como era no Egito, porque no Egito desde que o mundo é mundo, a dança do ventre existe, está além da escrita da história. Mas independente disso, a obra me trouxe a impressão que a dança não estava presente só num local estritamente feminino ou com o viés da prostituição, mas também entre os apaixonados. Aí logo me veio a imagem de uma dançarina linda surgindo entre os convidados e encontrando o olhar de um homem verdadeiramente apaixonado!! Ai que emoção!

A escrava poderia se casar com um homem livre e assim se tornar uma "mulher livre", o que paradoxalmente faria perder a liberdade, mas além dessa situação, o que me chama a atenção no relato de Ibn Hazm é perceber que a paixão nunca deixou de existir, mesmo numa sociedade que reprimia e segregava a mulher das relações sociais. Essa repressão não vinha de uma concepção de inferioridade da mulher, muito pelo contrário, mas pelo poder que a mulher possuía sobre o homem, ela poderia dominá-lo sobretudo pelo sexo (pois as mulheres, segundo a crença islâmica, possuem nove vezes mais desejo sexual que os homens), e era necessário mantê-la satisfeita e presa para que não se sobrepusesse ao homem!

Mulheres de um lado, homens do outro, eram então as escravas que estabeleciam a ligação com o mundo masculino, que então representavam a beleza e a sedução femininas, que traziam a dança, o canto, a paixão. E vendo pelo lado do amor, que eram valorizadas, ansiadas, desejadas, queridas, estimadas com os melhores sentimentos.

Para quem se interessar, este site tem vários poemas da obra "O Colar da Pomba" em espanhol. O livro é em prosa e em verso, e trata de todas as formas de se apaixonar e suas consequências. Para quem não lê em espanhol, uma breve tradução de um de seus poemas:

Quando estou ao seu lado,
Meus passos são como o prisioneiro
A quem levam ao suplício
Quando vou ao seu encontro, corro como a lua cheia
Quando atravessa os confins do céu
Mas, ao seu lado, ando devagar
Como se movem as altas estrelas que se fixam no céu.

E para quem fala inglês, o poeta Robert Bly declama poemas de Ibn Hazm em "O Colar da Pomba":

sábado, 27 de fevereiro de 2010

A Origem das Odaliscas

A imagem das odaliscas é grande estereótipo da dança do ventre. Mas quem eram estas mulheres? E por que a dança do ventre se relaciona com elas? Primeiramente, o termo odalisca é recente, aproximadamente do séc. XV, antes de serem denominadas "odaliscas", o nome que definia a sua presença na sociedade árabe-islâmica clássica era outro: Jawari (no Egito chamadas de Awalim).

Jawari é o plural de Jariya, que quer dizer, serva. Esta serva poderia possuir duas funções: poderia ser responsável pela casa e pelas notícias da vizinhança, ou poderia ser uma qina, isto é, uma serva para entretenimento, principalmente para cantar. A Jariya que soubesse cantar era disputada no mercado, o que acabou a tornando um artigo de luxo de príncipes e ricos comerciantes, gradativamente alterando seu conceito de "serva" para "concubina".

Eram as Jawari que constituíam os haréns dos sultões, que dançavam, cantavam e conversavam sobre filosofia e poesia para entreter seus senhores. Vários sábios árabes a descreveram em seus livros, como Nafzawi, Al-Jahiz, criando em sua imagem toda uma atmosfera de encantamento e sexualidade. São nos contos sobre as Jawari que surgem os casos de homoerotismo feminino, o que chamaríamos hoje de lesbianismo. Para os muçulmanos clássicos, as mulheres só poderiam se sentir atraídas sexualmente umas pelas outras se estivessem em haréns, o local onde as Jawari viviam ao lado de todas as mulheres da vida do sultão (mãe, filhas e esposas legítimas).

O harém não representava um local voltado para o sexo, mas um local de convivência secreto, onde somente o senhor e os eunucos que o guardavam poderiam ter acesso, sendo dirigido pela mãe do sultão. As Jawari não eram muçulmanas, mas sobretudo cristãs, capturadas em guerras ou pilhagens, e vendidas nos mercados. A concubina que se convertesse ao islamismo, deveria se casar, seja com o seu senhor ou com outro designado por ele. A partir do séc. XVI, mesmo aquelas não convertidas poderiam sair do harém e se casarem com homens escolhidos por seu senhor, caso fossem dados como terminados seus serviços ou se nunca tivessem sido requisitadas pelo sultão.

Ainda assim, a condição das Jawari não era das melhores. Diferentemente das Ghawazee, as Jawari eram escravas, não possuíam liberdade ou representação social. Elas ainda poderiam ser compartilhadas por co-proprietários ou mesmo vendidas sucessivamente a novos donos. Para as concubinas comuns, a única forma de conquistarem algum direito era em caso de se tornarem mães (um al-walad), o que lhes garantia a estabilidade ao lado de um único proprietário pelo resto da vida. Já as concubinas do harém poderiam ter a chance de possuírem alguma posição no mundo exterior, porém era muito raro de acontecer. Em ambas condições, por mais que as Jawari não tivessem qualquer controle de sua vida, elas exerciam grande influência sobre seu senhor, algo que pode ser exemplificado pelos diversos discursos que apontam o harém como um local de intrigas e conspirações.

No Império Turco Otomano, as Jawari passaram a ser chamadas de odaliscas (algo como camareiras). O termo odalisca passou também a abarcar aquelas que não eram propriamente concubinas, algo semelhante ao conceito inicial de Jariya. Aquelas que eram belas ou que tinham algum talento para dançar ou cantar, eram treinadas para se tornarem amantes do sultão. Se fossem bem sucedidas na sua arte de sedução, ou como cantoras ou dançarinas, poderiam ganhar algum status fora do harém, sendo utilizadas até mesmo para dar as "boas vindas" aos visitantes do Império.

A partir do séc. XIX, quando as nações europeias passaram a comercializar seus produtos industrializados e a mesmo industrializar os países árabes, as odaliscas tiveram quase um papel diplomático, ao representarem a hospitalidade dos sultões através de seus corpos e de sua dança. A dança do ventre encantou profundamente os imperialistas europeus, que fascinados, passaram a exportar para a Europa algo como um show de cabaret, primeiramente na França sob o nome "Danse du Ventre", nome este que passou a designar toda essa modalidade de dança no mundo ocidental (o nome original é Raqs Sharqi, que quer dizer, Dança do Oriente).

Assim, nada mais justificável que a imagem da dança do ventre fosse representada por tantos anos como a concubina bela e sedutora, a odalisca. No mundo árabe, a dança do ventre como entretenimento só era desempenhada por Ghawazee ou Jawari (Odaliscas), isto é, por prostitutas ou concubinas, e é por isso que a dança do ventre não é vista com bons olhos por lá. Atualmente, muitas países usam a dança do ventre com papel turístico, como o Líbano, o Egito, a Turquia, mas para muitos árabes, a dança do ventre está longe de perder a sua imagem de promiscuidade.

Existem danças folclóricas festejadas por grupos étnicos, danças que chegaram até nós, como o Falahi, o Baladi, entre outros, mas que eram desempenhadas por camponeses em ocasiões festivas. Esses folclores foram incorporados ao que chamamos no Ocidente de Dança do Ventre, mas eles eram atividades distintas das praticadas no haréns e nas ruas pelos Ghawazee.

A impressão deixada nos europeus pelas odaliscas pode ser conferida pelas diversas pinturas que encontramos até mesmo no Google. Pintores como Jean Auguste Dominique, Vicenzo Martinelli e Fabio Fabbi retrataram o imaginário europeu do que seria o harém, obras de erotologia árabe foram traduzidas, se iniciou o movimento que chamamos de "orientalismo" (o Oriente como algo envolto em misticismo e encantamento, como "o outro").

Para fechar, em homenagem a essa ideia orientalista do Oriente (por incrível que pareça não é um pleonasmo), e sobretudo sobre a ideia que temos do harém e das odaliscas, um vídeo "modernoso" da Sarah Brightman:

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Origens da Dança do Ventre: Ghawazee


Informações do site Belly Dance Chicago


Ghawazee era o nome de um dos mais famosos grupos de dançarinos nômades do Egito. As mulheres Ghawazee eram chamadas de Ghazeeye e os homens de Ghazee. Porém, o nome Ghawazee era geralmente usado para se referir às dançarinas. Assim como muitas formas de dança oriental, grande parte da história dos Ghawazee é desconhecida devido à falta de documentação histórica.

Os Ghawaaze professavam a fé mulçumana e falavam a mesma língua, mas não eram de origem egípcia. Os Ghawazee eram conhecidos por não se parecerem fisicamente com os egípcios e suas mulheres eram consideradas, por muitos, as mais belas do Egito.

Escritores ocidentais retratam as dançarinas Ghawazee florescendo como uma parte bem aceita da sociedade egípcia por volta de 1700. Isso durou até cerca de 1834, quando foram expulsas devido a pressões religiosas. A principal razão para o banimento era o fato de as mulheres Ghawazee não usarem véus para cobrir o rosto.

Os Ghawazee viviam nas grandes aldeias do Egito, sobretudo no Alto Egito. Nas cidades do delta, moravam em assentamentos de tendas e barracas. Eles prezavam muito pelos bebês de sexo feminino e consideravam um filho homem como uma desgraça econômica. Isso tudo porque as mulheres Ghawazee, sem exceção, eram criadas para se tornarem prostitutas e dançarinas. Antes de uma menina se casar, seu pai venderia seus "serviços" a quem pagasse mais. Ela então, normalmente, se casaria com um homem de seu próprio grupo.

Os Ghawazee viajavam de cidade em cidade, participando de feiras e acampamentos. As mulheres dançavam nas ruas, geralmente recolhendo dinheiro com o pandeiro depois do show. Enquanto os homens tocavam instrumentos, as mulheres dançavam sozinhas ou com dançarinas de outros grupos, ao mesmo tempo em que tocavam snujs. Também era comum que dançassem em ocasiões festivas em haréns, casamentos e nascimentos. As mulheres Ghawazee desfrutavam do prestígio de serem as dançarinas mais conhecidas do Egito.

As Ghawazee conviviam com os cidadãos mais ricos da região. Essa segurança financeira permitia que as dançarinas adquirissem considerável riqueza, fama e bons casamentos. As mais ricas se vestiam com seda e usavam colares, tornozeleiras, pulseiras de ouro e adornavam a cabeça com moedas. Algumas ainda usavam piercing no nariz. Geralmente, as Ghawazee usavam trajes quase idênticos aos das mulheres da classe média egípcia. Tanto homens quanto mulheres pintavam os olhos com kohl (pó preto usado para maquiagem) e tatuavam as mãos e os pés com henna, seguindo o costume das classes média e alta do Egito. Alguns Ghawazee conquistaram muita riqueza, casas luxuosas, escravos e gado.

A dança das Ghawazee pode ser descrita como um tanto "pesada" e sensual. Shimmies, batidas de quadril e giros são uma espécie de consenso em todas os estilos de dança do ventre. Mas os shimmies das Ghawazee, por exemplo, eram feitos de movimentos paralelos ao chão, para frente e para trás, ao invés de um movimento vertical, para cima e para baixo. Além de realizarem outros movimentos como cambrês, e tocarem snujs, era comum ouvir gritos estridentes e zaghareets (yalalalalalalala :D) das dançarinas durante sua apresentação. Seus gestos geralmente convidavam o público a bater palmas e a dar dinheiro.

Além das dançarinas Ghawaaze, existiam também as Jawari (ou Jawaree), concubinas, que também praticavam o que chamamos de dança do ventre. Diferentemente das primeiras, as Jawari não possuíam liberdade, elas eram escravas sexuais, mas deveriam ser instruídas para entreter seus senhores, com filosofia, poesia, música, canto e/ou dança. Mas delas trataremos em outro post.

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