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sábado, 21 de julho de 2012

A Dança do Ventre pode acabar no Egito?!

Existem muitas pessoas se perguntando sobre o futuro da dança do ventre no Egito agora que o presidente eleito representaria o "fundamentalismo islâmico", o que aos olhos ocidentais seria também um retrocesso à modernidade e à democracia do país, consequentemente a perda das liberdades conquistadas pelas mulheres, estas sempre vistas como as grandes "vítimas" da religião. Essas pessoas pensam: se a dança do ventre, que fora dos grandes hotéis, do glamour, que no senso comum é vista como prostituição e é uma profissão degradante, ela estaria definitivamente com seus dias contados?

A dança do ventre anda mal das pernas há bastante tempo no Egito. Eu sempre indico livros de escritoras egípcias feministas para que a gente tenha uma visão da "ala da discórdia", haha, como Leila Ahmed e Nawal Al Saadawi, pois elas nos dizem algo que acontece antes desta Revolução do Egito, antes de Mohamed Morsi. Elas contam que o uso do véu pelas mulheres egípcias não era tão comum há 40-60 anos atrás, muitas andavam de calça jeans, fumavam, pintavam o cabelo, mas o uso dele começou a crescer e hoje em dia, véu? As mulheres já estão aderindo direto ao niqab, com o qual só seus olhos ficam expostos. Sobre isso até a dançarina Jade el Jabel, que está lá há um ano, já comentou em um post. É engraçado perceber que o processo é tão longo e contínuo, mas só com uma ruptura extrema, que foi a queda de Mubarak e a ascensão de um partido islâmico ao poder, deu esse estalo para as pessoas perceberem o poder e significância deste partido.

Eu já havia comentado sobre essa onda de conservadorismo no mundo árabe, que não se deu só no Egito, mas vejam só: o país sempre foi muçulmano. E pasmem: a maioria das constituições dos países árabes são muçulmanas (com a lei islâmica, a charía como legislação) e também socialistas (sim, lembra da União Soviética?). E mesmo sendo muçulmano, o Egito adotava a dança do ventre como cultura, mas agora a dança do ventre carrega cada vez mais fortemente o aspecto de prostituição, de desvalorização da mulher. É tudo uma questão de interesse. A dança servia antes para definir uma identidade cultural e étnica, hoje ela não tem mais esse papel.

Semana passada dei de cara com um artigo da Folha de São Paulo entrevistando nada mais nada menos que: Dina! Isso mesmo, a dançarina. A entrevista foi feita antes da eleição de Mohamed Morsi, e me pareceu tendenciosa, porque: Dina representando a figura política Ahmed Shafiq, candidato que se opunha à Morsi?! Tadisacanági! Assim, Shafiq representava o antigo regime derrubado (Mubarak), e nele as dançarinas do ventre também não eram reverenciadas (hélouuu). Voltando à entrevista, Dina se diz preocupada, nisso eu acredito que ela possa ter preocupação: dá pra botar uma roupa decente pra dançar, dona Dina? (brincadeirinha) Ela dança em casamentos caros, sim, como mesmo mostram no artigo, as mulheres muçulmanas se acotovelam para vê-la, e a noiva dança! Agora diz qual delas viveria de dança abertamente? Que colocaria a roupa da Dina pra dançar? A dança do ventre ainda faz parte dos círculos familiares, mas a dança do ventre como profissão é extremamente desvalorizada.

As primeiras medidas de Morsi, entretanto, contrariando os prognósticos sombrios das mídias ocidentais e oposicionistas, não foram anti-democráticas, e eu estou acompanhando o desenrolar do seu governo. Mas pensando de uma forma crítica, eu acho que a dança do ventre no Egito não acabaria por causa de um presidente a favor do conservadorismo, eu acho que ela acabaria se ela continuar sendo utilizada como um olhar erotizante (roupas diminutas da Dina, locais de prostituição, com o papo de agradar o marido) ao invés do olhar da arte. Alguém já ouviu falar do caso do Flamenco na Espanha? Até o início do séc. XX ele era super discriminado e era literamente como a dança do ventre, dança de cabaré, de rua, de gente que ia ver a mulher requebrar e não apreciar sua habilidade, seu talento, sua arte. Foi com o trabalho de diversos intelectuais, sejam músicos, poetas, dançarinos e até mesmo diretores de cinema (como Carlos Saura) que a imagem do Flamenco foi elencada como arte, e hoje é exportada como tal. Mas isso impede que haja ainda gente preconceituosa por lá? NÃO! Parece mentira, mas eu fui conversar com um espanhol sobre flamenco, um cara que não era povão, e o mesmo me disse: "Você conhece a parte ruim da Espanha". Se libertar de preconceitos é muito difícil!!! Mas acho que com esse impasse sobre a dança do ventre no Egito, com tantos admiradores e praticantes pelo mundo, não seria a hora de adotar de verdade uma dança como arte?

Um exemplo que a visão da dança do ventre como parte da cultura se modificou ao longo do tempo, abaixo dois filmes com a mesma temática, a obra As Mil e Uma Noites:


Este é o filme completo de 1964, no início, no meio e no fim tem dança do ventre, e sempre bem celebrada. (até homem dançando à la mulherzinha)


Esse é um release de um filme que será lançado oficialmente ano que vem, só aparece dança do ventre (muwashahat) lá pelos 6 minutos, mesmo assim são mulheres sedutoras, meio monstro, meio mulher, um negócio meio perigoso...

domingo, 25 de março de 2012

As Dançarinas do Cairo


Gente, tem um documentário francês muito legal sobre a situação atual da dança do ventre no Egito! E o melhor ainda: legendado em português! Temos acesso a ele graças à Laura e à Grazi. Arrasaram, meninas!


Além do óbvio, foi interessante saber que:
1 - A Soraia Zaied ganha até mil euros por dança;
2 - O imaginário europeu sobre a dança do ventre ainda é o mesmo;
3 - Existe uma lei para que as dançarinas tapem a barriga!

sábado, 13 de agosto de 2011

At Night They Dance: As Noites do Cairo


O documentário canadense At Night They Dance está dando o que falar. E não é à toa: o filme de Isabelle Lavigne e Stéphane Thibault nos leva para dentro do fascinante e obscuro mundo das dançarinas do ventre do Egito.


Originalmente publicado em Hour Community

Esta é Reda, a matriarca de uma família de dançarinas do ventre

Cairo, a capital do Egito, é a maior cidade do continente africano e umas das mais populosas do mundo inteiro. Todos os conflitos políticos, religiosos e culturais convergem neste epicentro, que talvez tenha sido melhor definido pelos protestos que ocorreram em Tahrir Square este ano. Filmado antes da revolução egípcia, At Night They Dance, o premiado documentário dos cineastas Isabelle Lavigne e Stéphane Thibault, oferece um olhar diferente sobre o Cairo, centrando-se nas beldades egípcias que dançam por dinheiro, quando a noite cai.

Lavigne foi a primeira a ser sugada pelo ritmo hipnotizante do Cairo, quando ela e seu marido, Thibault, visitaram a cidade num feriado há cinco ou seis anos atrás. "Eu me apaixonei pelo Cairo, pelas pessoas", conta a cineasta. "Estávamos de férias no Egito há dois meses e decidimos ficar mais algumas semanas, que se tornaram mais algumas semanas, depois alguns meses e quando nos demos conta, já eram três anos."

Enquanto estava por lá, Lavigne ficou imersa na cultura local, aprendendo a falar árabe e a dançar. Ao passar tanto tempo com o povo do Cairo, Lavigne ficou fascinada com as mulheres que viu dançando nos cabarés e eventos sociais. Ela então dividiu suas observações com Thibault. "Eu conversei com Stéphane sobre o paradoxo das dançarinas de Dança do Ventre na sociedade egípcia. Elas são amadas e adoradas, mas são também desprezadas por suas práticas consideradas vergonhosas e pecaminosas."

Reda

É fácil perceber porque o filme está sendo tão elogiado. Em At Night They Dance, o espectador é levado a uma comunidade do Cairo e deixado lá para compreendê-la sozinho. Essa comunidade é onde vive Reda, mãe de sete filhos, com mais um a caminho. A família de Reda é formada por dançarinas de Dança do Ventre, uma tradição cada vez mais rara entre entre as famílias em razão da corrupção do ofício por lá, que vai desde o uso de drogas à prostituição.

"Nós não queríamos nos aprofundar no lado negro dessa atividade e, depois de quatro meses pesquisando famílias, pensamos que poderíamos não fazer o filme," diz Lavigne. "Então encontramos Reda e sua família e, na mesma hora, vimos quão carismática ela era, quão forte ela era. Eles nos lembraram os personagens do dramaturgo Michel Tremblay, sempre da classe trabalhadora, mulheres espirituosas."

Reda é uma personagem fantástica. Num momento, condena o comportamento dos filhos e, num outro, os defende veementemente. "Eu sempre a amei, desde o primeiro dia," declara Lavigne, com carinho. "Eu amo sua energia, sua complexidade. Ela é linda."

Mesmo linda, o que não falta é drama na casa de Reda, e ninguém de sua família parece estar nem um pouco tímido com a câmera que invade suas vidas. "O senso de intimidade deles é muito diferente do nosso," explica Lavigne, citando como exemplo vizinhos que sempre olhavam pelas janelas. "A câmera era apenas como uma outra pessoa entre eles."

Essa outra pessoa capta uma dicotomia que muitas vezes é bastante evasiva num filme. "Espera-se sempre que as mulheres sejam humildes e reservadas," diz Lavigne sobre um sentimento que conhece há algum tempo. "Então, você se depara com essas mulheres, numa sociedade tradicional, que têm essa força. Todas nós temos isso escondido lá dentro - o que esperam de nós e o que realmente somos."

Com toda essa pressão todos os dias, não é de se admirar que dancem a noite toda.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Samia Gamal

A dançarina egípcia Samia Gamal, nascida Zainab Ibrahim Mahfuz, é um ícone da dança do ventre no mundo inteiro. Estrela da época de ouro do cinema egípcio, Samia estrelou diversos filmes, chegando até a ser reconhecida em outros países, como nos Estados Unidos.

Natural da cidade de Wana, nasceu em 22 de Fevereiro de 1924. Mudou-se com a família logo depois para o Cairo, onde veio a conhecer anos depois a também atriz e dançarina Badia Massabni, criadora do estilo moderno de dança do ventre egípcio (estilo cabaré). Samia foi convidada por Badia a integrar sua companhia de dança, passando a adotar o nome Samia Gamal a sugestão de Badia. Juntas ainda de Tahia Carioca fizeram muitas apresentações.

A imagem de Samia, no entanto, não ficou por muito tempo associada à Badia, ela passou a se destacar ao mesclar balé e estilos latinos (salsa, merengue, tango, etc) ao seu vocabulário de dança e inovou ao ser a primeira dançarina do ventre a dançar de salto alto! Além do seu talento, Samia teve um anjo da guarda poderoso: Farid Al Atrash, um grande compositor, cantor e também ator, que fez uma dúzia de filmes com ela. A proximidade com Farid acabou despertando uma grande paixão, que durou 11 anos, mas nunca foi oficializada, pois Farid não aceitava se casar com Samia. Uns dizem que era porque ele pertencia a uma classe alta da sociedade egípcia, outros dizem que ele acreditava que o casamento limitaria ou até mesmo destruiria o talento de um artista. Seja lá o que for, Samia não foi a única amante do compositor, do qual permaneceu amiga até o fim da vida.

A ajuda de Farid Al Atrash foi decisiva para Samia alavancar sua carreira, ela passou a ser estrela de diversos filmes e de diversos nighclubs da alta sociedade. Nos anos 50, Samia foi morar nos EUA, onde se casou com um milionário texano, mas o casamento não durou muito. Em 1958, Samia se casou novamente com Roshdy Abaza, um famoso ator egípcio, com quem ela também atuou em diversos filmes.

Samia interrompeu sua carreira em 1972, mas voltou a dançar no início dos anos 80 por insistência do ator e amigo Samir Sabri. Em 1994, Samia faleceu no Cairo aos 72 anos de idade. Apesar da grande perda para o mundo artístico e cultural do Egito e também do mundo bellydancer, a imagem de Samia não desapareceu. Ela permanece sendo enaltecida e relembrada em diversos filmes, tendo já vários documentários sobre sua vida, o mais recente Samia Foverer de 2003.

Aqui abaixo um vídeo da Samia Gamal dançando Zeina (adorei essa versão! Quando vão disponilizar essas músicas antigas remasterizadas, hein?!). No vídeo, a Samia não precisa de todo um aparato figurinístico para mostrar seu talento:



quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Souad Hosny

Souad Hosny foi uma das atrizes mais famosas do Egito, tendo se destacado também como dançarina e cantora. Teve um caso com o cantor Abdel Halim Hafez, e como a maioria das artistas, casou-se várias vezes. Ela fez sucesso numa época em que os filmes egípcios usavam e abusavam da dança do ventre, e muitos dos seus papéis eram de dançarina do ventre (saber dançar era um requisito para ser atriz!). Souad foi além desse quesito e também cantava muito bem, o que lhe rendeu várias músicas de sucesso (como Ya Wadd Ya Tageil regravada pela Nancy Ajram). Ela também era meia-irmã da cantora Nagat Al Saghira, que canta a música Ana Bastanak.

Souad Hosny foi "descoberta" ao cantar numa rádio e gravou seu primeiro filme aos 16 anos. Ao todo, ela fez 83 filmes. Em todos ela cantava e dançava, mas sua voz aparece muito mais do que sua dança. Ainda assim, o que eu vejo nela é aquela alegria, aquele sentimento que eu sempre procuro numa dançarina do ventre. São poucos trechos que ela realmente dança, mas quando temos essa oportunidade, ficamos envolvidos com seu carisma. Talvez seja também porque ela era extremamente expressiva, o seu talento como atriz permitiu que ela não ficasse muito atrás das dançarinas do ventre propriamente ditas. Por representar uma mistura de simplicidade e beleza, os egípcios a apelidaram de "Cinderela".

Em 2001, Souad morreu misteriosamente quando planejava lançar sua biografia. As circunstâncias de seu falecimento nunca foram plenamente esclarecidas (ela caiu do 6º andar do prédio onde morava), mas a polícia registrou sua morte como suicídio. Apesar de ter parado de fazer filmes dez anos antes de sua morte, Souad permaneceu na memória de seus admiradores, assim como permanece até hoje, pois é tida como um dos maiores símbolos da época de ouro do cinema egípcio.

Aqui uma parte de um filme em que Souad Hosny dança:



E aqui a música feita por Abdel Halim Hafez em homenagem a ela após o rompimento, pois continuaram amigos:

domingo, 21 de março de 2010

Randa Kamel

Randa Kamel é uma das estrelas da dança do ventre no mundo. Não é à toa que tem sido requisitada constantemente para vir ao Brasil realizar workshops. Essa dançarina egípcia começou a dançar aos 16 anos de idade, e já soma dezessete anos de carreira!

Randa teve aulas com Raqia Hassan, Ibrahim Akeef, participou da Reda Troupe (Grupo Folclórico Egípcio), e desde cedo conquistou muito sucesso. Com seu estilo delicado, característico das dançarinas egípcias, Randa aliou um toque especial de carima e interpretação à sua performance. Ela é tida como uma das dançarinas mais catárticas atualmente, isto é, ela entra literalmente na música, e segundo alguns, consegue até mesmo fazer o público chorar com a sua dança.

Com tanto sucesso, Randa passou a ministrar aulas para o Ahlan Wa Sahlan Festival no Cairo, evento que anualmente atrai milhares de praticantes da dança do ventre no mundo em busca das últimas tendências do Egito.

Aqui abaixo uma apresentação de Randa, mas como muitos dizem, ao vivo ela é infinitamente melhor! Imaginem só!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Taqsim

O Taqsim não é um ritmo, não é um estilo, não é um folclore. Muitas pessoas confundem este nome para denominar um ritmo e/ou uma melodia lenta em uma música, especialmente numa música clássica. O Taqsim é uma improvisação melódica de um instrumento, ou seja, qualquer improvisação de um instrumento melódico (flauta, violino, quanoun, alaúde, etc), podendo vir acompanhado ou não de um ritmo na percussão.

Existem alguns ritmos que aparecem predominantemente para acompanhar o taqsim: Wahda Wo Noss ou Wahda Kabir e o Ciftelelli, sendo o Wahda uma versão mais simples e lenta do Ciftelelli. Assim sendo, ao ouvir uma base rítmica na percussão e a improvisação de um instrumento melódico, a melodia é o Taqsim e o ritmo ou é Wahda Wo Noss ou é Ciftelelli.

Ao ouvir o Taqsim, os movimentos deverão ser sinuosos, acompanhando a melodia. O ritmo não deverá ser marcado na dança, somente o acento do ritmo poderá ser lido pelo corpo. Algumas dançarinas costumam seguir a percussão durante o Taqsim, entretanto a dança perde muito deste momento que deveria ser de "encantamento" pela melodia. O Taqsim é o "grande lamento", quem já viu a Dina chorando nessa hora? A improvisação é praticamente a fala do instrumento, é como se ele estivesse dizendo algo denso e profundo, que deve ser lido com entrega. Marcar somente a percussão é ignorar todo esse apelo sentimental que é próprio do Taqsim.

Aqui abaixo a Dina sofrendo no Taqsim:

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Modelitos Bizarros das Dançarinas Egípcias

Tudo bem que na dança do ventre nossos modelitos não se restringem ao cinturão e bustiê, nós podemos variar nos modelos de saias, usar calças, optar por usar ou não cinturão, variar nos tipos de bustiê, mas que pedaço de pano é aquele que as egípcias desfilam em suas apresentações? Elas parecem ter um critério de moda mucho loco, algo que beira a falta de bom senso!

Quando nos deparamos com estas estrelas mal-vestidas, nos perguntamos: o que fez esta criatura achar que esta roupa está valorizando a sua performance? Bem, logo também concluímos que não é bem a dança que ela está buscando valorizar, parece que a plateia está querendo ver outra coisa, as curvas das dançarinas. Para tal, minissaias, tops, roupas aperrrrtadas até prender a circulação e um quê brega. Fico imaginando o agente dessas bailarinas dando a dica: "Na próxima vez se vista mais ousada", e depois de milhares de "dicas", por fim só se a bailarina vier "vestida" com três "post-it" tampando as devidas partes! E se o problema fosse só a "ousadia"! As dançarinas se esmeram em ganhar o título "rainha do brega", para isso lantejoulas, brrrrilhos em todos os poros, cores forrrrtes, e claro: desenhos escabrosos nas roupas (ou então elas mesmas desenhadas ao estilo psicodélico!).

Mas quando foi que surgiu esta tendência? Bem, no início da década de 90, três dançarinas muito conhecidas começaram a se destacar de uma forma peculiar: Dina, Mona Said e Nagwa Fouad. O que havia de exótico nelas? Claro, os modelitos reveladores e inusitados! Em 1992, Dina e Mona Said, não satisfeitas com as roupas diminutas, começaram a usar calças de lycra! Em 1994 (como podemos ver na foto ao lado), novamente não satisfeita, Dina passou a unir seu famoso vestido justo com o shortinho básico, e claro, com um corte enviesado para dar o tcham e presilhas cobertas de strass. Ah sim, esta fotinho é um furo de reportagem: o botão do decote se soltou e ficou essa abertura aí para a alegria da rapaziada. A pobrezinha ficou um bom tempo tentando prender novamente o decote! Dentre outros modelitos de Dina, temos vestidos mais do que reveladores, se este decote se abriu "sem querer", não podemos negar a intenção de mostrar outras partes de seu corpo, nos vestidos transparentes (ao menos ela usa calcinha! Boa moça!), com pouco tecido, e cores e estampas vibrantes (laranja florescente e estampas de flores, frutas, até mesmo as mesmas em miniatura).

Mona Said também não fica atrás de Dina no quesito "breguice ousada", claro também com mais detalhes ainda! Um carro alegórico ficaria com inveja das roupas de Mona! Essa aqui não diva nada, é perua mesmo!! Segundo relatos de Leyla Lanty, uma dançarina norte-americana que a viu dançar ao vivo, certa vez Mona entrou no palco com a roupa decotada nas cadeiras (primeira foto acima), os músicos quase perderam a concentração, a expressão deles foi de imensa surpresa, e profissionais que eram, não perderam o ritmo! Músicos egípcios agora têm que tocar esperando qualquer coisa, meninas!

E por fim, claro, Nagwa Fouad! As breguices e situações inusitadas, acho que esta foto ilustra muito bem: vestido de baladi preto transparente, bustiê e microssaia de um tecido extremamente brilhante e colorido fosforescente, e para chamar ainda mais a atenção, subiu numa cadeira para dançar! Segundo relatos narrados por Leyla, numa de suas performances com esta "ropitcha", um homem a mandou descer do palco para se vestir, porque ele tinha trazido a família para ver o show. Nagwa mandou a banda parar de tocar, desceu do palco, subiu na mesa do homem (!) e mostrou que a roupa dela cobria todo o corpo (esse tecido aí transparente). O que aprendemos com esta "lição": não importa se muitos ficarão chocados, o importante é que o show deve continuar (ao menos nos Night Clubs egípcios)!

E existem brasileiras adotando semelhantes figurinos? Sim, existem, infelizmente... A última que ouvi falar - graças a Deus não precisei testemunhar isso - foi uma dançarina com top e saia jeans, devidamente bordados, em que a moçoila ainda se atrevia a fazer arabesques... Sinceramente: poupe-me!!! Claro que existem muiiiiitas dançarinas que acreditam que "o que é bonito tem que se mostrar", mas acho este ditado uma grande desculpa para se mostrar de tudo, e que independente dos gostos pessoais de cada um, acaba vulgarizando a dança do ventre. Dança do ventre é vulgarizada no Egito? Ô se é! Lá dançarina do ventre tem um sinal de igual ao lado das prostitutas. Não se iludam com brilhos, plumas, strass, lá a coisa tá feíssima, é preciso muito cuidado e muitos anjos da guarda para se trabalhar decentemente no Egito.

Mas é isso, fica a dica de se valorizar e valorizar a nossa dança. Se você é uma dançarina linda, excelente, use uma roupa que mostre o que você tem de bonito sim, mas não mostre algo que vá confundir o objetivo da sua dança. Vamos dançar para sermos admiradas, não somente assediadas!

Aqui abaixo Nagwa Fouad num dos seus momentos psicodélicos:

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Biografia - Sohair Zaki

Sohair Zaki é uma das dançarinas mais famosas das décadas de 60 e 70 e ícone da dança egípcia nos anos 80. Nasceu em Mansoura, no Egito, onde ela e sua família viveram até que ela completasse nove anos. Depois disso, mudaram-se para Alexandria. Souhair se apaixonou pela música e pela dança bem jovem, aprendendo a dançar sozinha, ouvindo o rádio. Seu talento natural se revelou muito cedo e, antes mesmo de que ela se desse conta, começou a se apresentar em festas de aniversários e casamentos de amigos e familiares. Mais tarde, Sohair mudou-se para o Cairo. Mesmo contra a vontade de seu pai, começou a dançar profissionalmente em casamentos e a fazer perfomances em casas noturnas. O pai da dançarina faleceu bem cedo e a mãe se casou novamente. Seu padrasto foi o responsável pelo lançamento de sua carreira como dançarina e foi quem a gerenciou, tornando-se mais tarde seu empresário. Sohair Zaki não se saiu bem num teste como apresentadora, mas esse fato acabou por ser apenas o início de sua carreira na televisão. O resto é história, como se costuma dizer.

Sohair pode ter se afastado das apresentações de dança e dos filmes, mas não perdeu seu glamour. Anwar Sadat se referiu a ela, numa ocasião, como "a Oum Kolthoum da dança". "Enquanto Oum canta com sua voz, você canta com seu corpo", disse uma vez (Sohair, aliás, foi a primeira bailarina a interpretar as reverenciadas músicas de Oum Kolthoum). O presidente americano Nixon a chamou de "Zagharit", quando descobriu que o termo se referia a uma espécie de gritaria estridente numa expressão de alegria.

Segundo a própria Sohair, sua maior rival era Nagwa Fouad. "Nós tivemos uma competição feroz. Se as duas estivessem contratadas para uma mesma festa numa noite, corríamos para mandar nossas orquestras e roupas na frente, vendo quem chegava antes ao local". Enquanto Nagwa Fouad adorava perfomances espetaculares no estilo ocidental, Sohair representava um estilo mais natural. A dançarina se orgulha em dizer que era constantemente escolhida para apresentações para autoridades em visitas ao Egito.

No final dos anos 80, ao perceber que o cenário da dança do ventre no mundo começava a mudar, Sohair Zaki começou a pensar a se retirar do meio elegantemente. Naquela época, profundas mudanças na visão que o mundo tinha sobre a dança começavam a acontecer.

Ainda assim, Sohair Zaki é reverenciada até hoje por seu talento. E ela mesma, é claro, jamais esquecerá de seus tempos de dançarina."Aqueles dias nunca mais voltarão atrás. A atmosfera, os clientes, os convidados. Onde estão eles agora? A dança Oriental foi minha vida. Eu tenho meu filho e meu marido. Mas as melhores memórias de minha vida são todas da dança", disse.




terça-feira, 12 de maio de 2009

Tahia Carioca

Tahia Carioca (nascida Badaweya Mohamed Kareem Al Nirani) foi uma das maiores dançarinas egípcias que a dança do ventre já conheceu. Nascida na cidade de Ismaleya em 1920, ela nunca recebeu o apoio da família para dançar. Devido a essas diferenças, na década de 30, Tahia se mudou para o Cairo, vindo a morar com um velho vizinho, Suad Mahasen, dono de uma boate e também um artista. Entretanto isso não significou o início de sua carreira: por causa da má fama de dançarinas de boate, Suad não permitiu que Tahia dançasse em seu estabelecimento, ainda que ele sofresse pressão de quem vira Tahia dançando em sua casa, para que ele divulgasse o trabalho dela.

Pouco tempo depois, no entanto, o talento de Tahia chegou ao conhecimento de Badia Massabni, dona do Casino Opera, a boate mais famosa da época, que acabou a contratando com o nome de Tahia Mohamed. Conforme suas performances adquiriram notoriedade, Tahia se especializou no samba para compor suas coreografias, ficando conhecia como Tahia Carioca.

Além da dança, Tahia foi atriz, estrelando 120 filmes egípcios da chamada "Era de Ouro". Em 1963, Tahia passou a se dedicar ao teatro e parou de dançar.

Tahia não podia ter filhos, acabou adotando uma menina chamada Atiyah Allah e também se mostrou muito ligada aos seus sobrinhos. Ao todo se casou 14 vezes, dentre seus maridos havia o também famoso ator egípcio Rushdy Abaza, que também se casou com Samia Gamal (com quem teve o seu mais longo casamento!), a rival de Tahia.

Tahia morreu aos 79 anos em 20 de Setembro de 1999 de ataque cardíaco. No entanto o seu legado permanece entre todas as bailarinas, como um exemplo de dançarina e parte da história da dança do ventre.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Fifi Abdo

Fifi Abdo (nascida Atiyat Abdul Fattah Ibrahim) é uma dançarina polêmica, considerada um ícone da dança do ventre no mundo todo. Nascida pobre, era até recentemente analfabeta! Ela é tão amada quanto odiada, no entanto definir a explicação para tamanha divergência de opiniões não é algo tão fácil!

Como dançarina amada, Fifi foi "eleita" por Hossam Ramzy como a melhor bailarina de dança do ventre que ele já conheceu. Por quê? Simplesmente nenhuma possui um carisma comparado ao dela, ela cativa, encanta, provoca, tudo isso apenas com cinco movimentos básicos da dança do ventre. Caímos então em "por que odiada"? Ela tem um dos vocabulários musicais mais limitados e repetitivos que uma dançarina profissional poderia ter: basicamente seus movimentos são oitos, redondos, shimmys, deslocamentos e o básico egípcio. Além disso, Fifi, em seus filmes, mostrava uma dançarina vulgarizada, mesmo angariando muito sucesso através deles.

Fifi começou sua carreira como dançarina aos 20 anos, dançando em casamentos. Três anos depois, em 1976, começou a atuar no cinema, principalmente explorando seus dotes como dançarina, tendo atuado também em teatros seguindo o mesmo estilo. A consagração veio em 1989, com o filme "Uma mulher não é suficiente" (que título precioso! uh!).

Além de provocar escândalo dançando, Fifi também teve uma vida movida a polêmicas, as quais se justificavam como "jogadas de marketing" de seus empresários. De qualquer forma, para uma mulher muçulmana, Fifi realmente representou a ousadia: se casou cinco vezes (tendo duas filhas) e por sua vida incomum teve problemas constantes com as autoridades muçulmanas, passando quase tanto tempo nos tribunais quanto no palco. Em 2002, ela propôs a criação da Primeira Associação Formal de dançarinas do ventre do Egito, mas teve sua ideia rechaçada sob a alegação de que isto "seria o mesmo que legalizar a prostituição".

Ao mesmo tempo, Fifi é conhecida por suas obras de caridade e por sua generosidade, mantendo financeiramente mais de 30 famílias pobres. A verba para se manter e ajudar aos necessitados provém ainda da sua dança (ela cobra US$5.000 para dançar 15 minutos em hotéis 5 estrelas!!), pois aos 55 anos Fifi permanece dançando, atividade que ela pretende continuar enquanto puder, pois por mais que em seu país a dança do ventre não seja valorizada, Fifi defende que é uma arte e é parte da herança egípcia.

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