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sábado, 21 de julho de 2012

A Dança do Ventre pode acabar no Egito?!

Existem muitas pessoas se perguntando sobre o futuro da dança do ventre no Egito agora que o presidente eleito representaria o "fundamentalismo islâmico", o que aos olhos ocidentais seria também um retrocesso à modernidade e à democracia do país, consequentemente a perda das liberdades conquistadas pelas mulheres, estas sempre vistas como as grandes "vítimas" da religião. Essas pessoas pensam: se a dança do ventre, que fora dos grandes hotéis, do glamour, que no senso comum é vista como prostituição e é uma profissão degradante, ela estaria definitivamente com seus dias contados?

A dança do ventre anda mal das pernas há bastante tempo no Egito. Eu sempre indico livros de escritoras egípcias feministas para que a gente tenha uma visão da "ala da discórdia", haha, como Leila Ahmed e Nawal Al Saadawi, pois elas nos dizem algo que acontece antes desta Revolução do Egito, antes de Mohamed Morsi. Elas contam que o uso do véu pelas mulheres egípcias não era tão comum há 40-60 anos atrás, muitas andavam de calça jeans, fumavam, pintavam o cabelo, mas o uso dele começou a crescer e hoje em dia, véu? As mulheres já estão aderindo direto ao niqab, com o qual só seus olhos ficam expostos. Sobre isso até a dançarina Jade el Jabel, que está lá há um ano, já comentou em um post. É engraçado perceber que o processo é tão longo e contínuo, mas só com uma ruptura extrema, que foi a queda de Mubarak e a ascensão de um partido islâmico ao poder, deu esse estalo para as pessoas perceberem o poder e significância deste partido.

Eu já havia comentado sobre essa onda de conservadorismo no mundo árabe, que não se deu só no Egito, mas vejam só: o país sempre foi muçulmano. E pasmem: a maioria das constituições dos países árabes são muçulmanas (com a lei islâmica, a charía como legislação) e também socialistas (sim, lembra da União Soviética?). E mesmo sendo muçulmano, o Egito adotava a dança do ventre como cultura, mas agora a dança do ventre carrega cada vez mais fortemente o aspecto de prostituição, de desvalorização da mulher. É tudo uma questão de interesse. A dança servia antes para definir uma identidade cultural e étnica, hoje ela não tem mais esse papel.

Semana passada dei de cara com um artigo da Folha de São Paulo entrevistando nada mais nada menos que: Dina! Isso mesmo, a dançarina. A entrevista foi feita antes da eleição de Mohamed Morsi, e me pareceu tendenciosa, porque: Dina representando a figura política Ahmed Shafiq, candidato que se opunha à Morsi?! Tadisacanági! Assim, Shafiq representava o antigo regime derrubado (Mubarak), e nele as dançarinas do ventre também não eram reverenciadas (hélouuu). Voltando à entrevista, Dina se diz preocupada, nisso eu acredito que ela possa ter preocupação: dá pra botar uma roupa decente pra dançar, dona Dina? (brincadeirinha) Ela dança em casamentos caros, sim, como mesmo mostram no artigo, as mulheres muçulmanas se acotovelam para vê-la, e a noiva dança! Agora diz qual delas viveria de dança abertamente? Que colocaria a roupa da Dina pra dançar? A dança do ventre ainda faz parte dos círculos familiares, mas a dança do ventre como profissão é extremamente desvalorizada.

As primeiras medidas de Morsi, entretanto, contrariando os prognósticos sombrios das mídias ocidentais e oposicionistas, não foram anti-democráticas, e eu estou acompanhando o desenrolar do seu governo. Mas pensando de uma forma crítica, eu acho que a dança do ventre no Egito não acabaria por causa de um presidente a favor do conservadorismo, eu acho que ela acabaria se ela continuar sendo utilizada como um olhar erotizante (roupas diminutas da Dina, locais de prostituição, com o papo de agradar o marido) ao invés do olhar da arte. Alguém já ouviu falar do caso do Flamenco na Espanha? Até o início do séc. XX ele era super discriminado e era literamente como a dança do ventre, dança de cabaré, de rua, de gente que ia ver a mulher requebrar e não apreciar sua habilidade, seu talento, sua arte. Foi com o trabalho de diversos intelectuais, sejam músicos, poetas, dançarinos e até mesmo diretores de cinema (como Carlos Saura) que a imagem do Flamenco foi elencada como arte, e hoje é exportada como tal. Mas isso impede que haja ainda gente preconceituosa por lá? NÃO! Parece mentira, mas eu fui conversar com um espanhol sobre flamenco, um cara que não era povão, e o mesmo me disse: "Você conhece a parte ruim da Espanha". Se libertar de preconceitos é muito difícil!!! Mas acho que com esse impasse sobre a dança do ventre no Egito, com tantos admiradores e praticantes pelo mundo, não seria a hora de adotar de verdade uma dança como arte?

Um exemplo que a visão da dança do ventre como parte da cultura se modificou ao longo do tempo, abaixo dois filmes com a mesma temática, a obra As Mil e Uma Noites:


Este é o filme completo de 1964, no início, no meio e no fim tem dança do ventre, e sempre bem celebrada. (até homem dançando à la mulherzinha)


Esse é um release de um filme que será lançado oficialmente ano que vem, só aparece dança do ventre (muwashahat) lá pelos 6 minutos, mesmo assim são mulheres sedutoras, meio monstro, meio mulher, um negócio meio perigoso...

domingo, 25 de março de 2012

As Dançarinas do Cairo


Gente, tem um documentário francês muito legal sobre a situação atual da dança do ventre no Egito! E o melhor ainda: legendado em português! Temos acesso a ele graças à Laura e à Grazi. Arrasaram, meninas!


Além do óbvio, foi interessante saber que:
1 - A Soraia Zaied ganha até mil euros por dança;
2 - O imaginário europeu sobre a dança do ventre ainda é o mesmo;
3 - Existe uma lei para que as dançarinas tapem a barriga!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Visão da Dança do Ventre no Mundo Árabe


Muitas pessoas ficam meio sem entender como nos países árabes, expostos pela grande mídia com aquelas mulheres sob burkas, política fundamentalista e "homens terroristas", poderia ter uma arte como a dança do ventre. Hoje vocês vão ter uma mini-aula de história contemporânea! :p

Primeiramente, o nome "dança do ventre" no mundo árabe não existe. "Dança do ventre" é uma criação francesa para designar a Dança Oriental, a Raqs Ash-sharqi. Logo, dizer que a dança do ventre é uma arte feminina porque só mulher tem ventre é a reprodução de um preconceito orientalista criado no séc. XIX. O termo "dança do ventre" acabou por abarcar não só a "dança das odaliscas", como também as expressões culturais de cada região, massificando num só nome estilos de diversas regiões e posteriormente países.

A dança oriental sempre esteve presente na cultura árabe, mas é claro que ela variava conforme o local que aparecia. A dança oriental que hoje chamamos de dança do ventre é em grande parte uma herança egípcia, e estava relegada aos círculos familiares, pouco aberta a grandes exposições. Esta dança foi completamente absorvida pelo Império Turco Otomano, mas nele ganhou outra conotação, passando a ser tanto uma prática familiar, como uma prática artística, na qual dançarinas e dançarinos se apresentavam em festas, eventos imperiais e até mesmo para receber chefes de Estado que visitavam o Império.

Dessa forma, a dança oriental teve uma grande expressão no mundo árabe, e posteriormente na época do Imperialismo, pelo mundo europeu. No mundo árabe percebemos a grande influência no Líbano, ainda que lá não seja tão marcante e característica quanto no Egito (o dabke é muito mais tradicional no Líbano que a dança do ventre propriamente dita), e também na Turquia, a atual herdeira do Império Turco Otomano.

Na época do Imperialismo, antes mesmo do fim do Império Turco Otomano, a França e a Inglaterra literalmente dividiram entre si as regiões árabes. Com a desculpa que as administrariam para se modernizarem (alguém lembra do caso do Iraque e do Afeganistão?), tomaram-nas como posses, o que gerou muitas revoltas, ocorrendo entre a década de 20 e 40 a maior parte das independências dos recém-países árabes, como a do Egito. Pra que estou contando isso? Essa presença ocidental é fundamental para a forma como a dança do ventre se moldará ao longo do séc. XX!

Sendo assim, vou me ater ao Egito para facilitar a visão deste momento. Ahhh, o Egito! A Inglaterra deu a independência ao Egito em 1922, mas quem disse que ela saiu de lá? A influência britânica foi extremamente forte até o início da segunda onda do nacionalismo egípcio na década de 50.

O que temos neste intervalo, digamos, entre as décadas de 30 a final da 40 na dança do ventre egípcia? Os famosos cabarés! Aqueles filmes de dança do ventre, pelos quais hoje conhecemos nomes como Samia Gamal, Tahia Carioca, etc? É literalmente a Era de Ouro da Dança do Ventre. Nessa época até mesmo eram poucas as mulheres que usavam véu nas cidades, como conta a escritora Nawal Saadawi no livro "A Face Oculta de Eva". Havia uma ocidentalização forte no Egito, a dança do ventre na maior parte das vezes era para entreter turistas, mas também era uma forma de exportação da cultura egípcia, algo que muitos egípcios valorizavam e tinham orgulho.

Bem, aí a coisa começou a mudar: a Palestina foi repartida para dar lugar ao Estado de Israel em 1948. Comoção no mundo árabe! Uma das explicações para isso ter acontecido foi o desvirtuamento da fé que os países árabe-islâmicos haviam se submetido ao absorver valores ocidentais. A dança do ventre começou a perder espaço gradativamente, o uso do véu começou a voltar com força nas grandes cidades, várias pessoas passavam a exprimir asco e revolta ante os valores ocidentais que antes se faziam presentes nos grandes círculos da sociedade. Os países árabes ainda tentaram retomar os territórios da Palestina, mas foram derrotados (espiões israelenses descobriram a tática de guerra deles pouco antes do confronto), o que gerou ainda mais essa necessidade de retorno à , aos verdadeiros valores islâmicos. Para piorar na Guerra dos Seis dias, em 1970 Israel invadiu e ocupou a Península do Sinai, território egípcio, que só foi devolvida através de um tratado de paz em 79. O que aconteceu então? Egito expulso da Liga Árabe, presidente assassinado por um fundamentalista, Egito na mão de Hosni Mubarak. O resto a gente conhece pelos noticiários...

Essa situação também é narrada no livro autobiográfico da dançarina egípcia Dina (Ma Liberté de Danser), que só tomei conhecimento depois de contar para a Lívia o que conto a vocês neste post, sobre a mudança da imagem da dança do ventre no mundo árabe. Essa volta ao conservadorismo aconteceu em todo o mundo árabe, até mesmo no Líbano que é cristão! A dança do ventre fora dos círculos familiares passou a ser vista como haram (ilícito), como uma importação e não com expressão da cultura egípcia, e até mesmo árabe!

Com o tempo, a tradição das dançarinas na vida cotidiana da sociedade egípcia deixou de ser comum. Ano passado, por exemplo, meu amigo Mohamad Khairy se casou com minha amiga Weasal lá no Cairo, e ele me convidou para dançar no casamento dele. Tipo: isso era tradição anos atrás!! Mas eu fiquei chocada e perguntei a ele se os convidados não ficariam incomodados, a resposta dele foi: "Não, mas eles vão estranhar. Só que eles sabem quem eu sou e como minha família é, e não vão pensar mal de mim e de minha esposa". Pensar mal por quê, né? Pois alguém já viu o vídeo de uma dançarina do ventre super over deixando a noiva morta de vergonha? As dançarinas divas que vemos por aí como Soraia Zayed, Dina, Randa Kamel, não dançam pro povo, baby, elas dançam pra ricaços e principalmente pros turistas.

Hoje em dia eu tenho as minhas dúvidas se a dança do ventre ainda vai ter espaço no meio de entretenimento egípcio. Se vocês não sabem, a maioria do parlamento eleita recentemente é da Irmandade Islâmica, e a intenção deles é instituir a charía como lei constitucional. A minha amiga Esraa de Alexandria diz que o Egito não vai virar uma Arábia Saudita, mas eu tenho minhas ressalvas. Ah sim, cabe lembrar que essa imagem que vemos na TV é super deturpada, homens-bomba, terrorismo, etc, nada tem a ver com uma volta à religião, a sua ação é totalmente motivada por uma questão política, e não religiosa (como vocês poderão entender aqui).

No entanto, a dança do ventre no meio familiar anda fortalecida no Egito. As mulheres andam de niqab na rua (aquele véu que só deixa os olhos à mostra), depois passam na Khan el Khalili (ou seus maridos), compram uma roupa de dança do ventre ou um xale de medalhas, e vão pra casa dançar! Eu mostro meus vídeos para elas, elas gostam, dão opinião, dicas, etc, a dança do ventre nesse ponto acredito que nunca vai morrer! Inshallah!

E aqui esse vídeo que acho ótimo para ilustrar a sociedade egípcia da era de ouro da dança do ventre:


O menininho dançando a la Tito Seif, as mulheres de pernas de fora e sem véu, roupas ocidentais, uma dançarina do ventre do povão beeem diferente do que vemos quando buscamos no youtube.

sábado, 13 de agosto de 2011

At Night They Dance: As Noites do Cairo


O documentário canadense At Night They Dance está dando o que falar. E não é à toa: o filme de Isabelle Lavigne e Stéphane Thibault nos leva para dentro do fascinante e obscuro mundo das dançarinas do ventre do Egito.


Originalmente publicado em Hour Community

Esta é Reda, a matriarca de uma família de dançarinas do ventre

Cairo, a capital do Egito, é a maior cidade do continente africano e umas das mais populosas do mundo inteiro. Todos os conflitos políticos, religiosos e culturais convergem neste epicentro, que talvez tenha sido melhor definido pelos protestos que ocorreram em Tahrir Square este ano. Filmado antes da revolução egípcia, At Night They Dance, o premiado documentário dos cineastas Isabelle Lavigne e Stéphane Thibault, oferece um olhar diferente sobre o Cairo, centrando-se nas beldades egípcias que dançam por dinheiro, quando a noite cai.

Lavigne foi a primeira a ser sugada pelo ritmo hipnotizante do Cairo, quando ela e seu marido, Thibault, visitaram a cidade num feriado há cinco ou seis anos atrás. "Eu me apaixonei pelo Cairo, pelas pessoas", conta a cineasta. "Estávamos de férias no Egito há dois meses e decidimos ficar mais algumas semanas, que se tornaram mais algumas semanas, depois alguns meses e quando nos demos conta, já eram três anos."

Enquanto estava por lá, Lavigne ficou imersa na cultura local, aprendendo a falar árabe e a dançar. Ao passar tanto tempo com o povo do Cairo, Lavigne ficou fascinada com as mulheres que viu dançando nos cabarés e eventos sociais. Ela então dividiu suas observações com Thibault. "Eu conversei com Stéphane sobre o paradoxo das dançarinas de Dança do Ventre na sociedade egípcia. Elas são amadas e adoradas, mas são também desprezadas por suas práticas consideradas vergonhosas e pecaminosas."

Reda

É fácil perceber porque o filme está sendo tão elogiado. Em At Night They Dance, o espectador é levado a uma comunidade do Cairo e deixado lá para compreendê-la sozinho. Essa comunidade é onde vive Reda, mãe de sete filhos, com mais um a caminho. A família de Reda é formada por dançarinas de Dança do Ventre, uma tradição cada vez mais rara entre entre as famílias em razão da corrupção do ofício por lá, que vai desde o uso de drogas à prostituição.

"Nós não queríamos nos aprofundar no lado negro dessa atividade e, depois de quatro meses pesquisando famílias, pensamos que poderíamos não fazer o filme," diz Lavigne. "Então encontramos Reda e sua família e, na mesma hora, vimos quão carismática ela era, quão forte ela era. Eles nos lembraram os personagens do dramaturgo Michel Tremblay, sempre da classe trabalhadora, mulheres espirituosas."

Reda é uma personagem fantástica. Num momento, condena o comportamento dos filhos e, num outro, os defende veementemente. "Eu sempre a amei, desde o primeiro dia," declara Lavigne, com carinho. "Eu amo sua energia, sua complexidade. Ela é linda."

Mesmo linda, o que não falta é drama na casa de Reda, e ninguém de sua família parece estar nem um pouco tímido com a câmera que invade suas vidas. "O senso de intimidade deles é muito diferente do nosso," explica Lavigne, citando como exemplo vizinhos que sempre olhavam pelas janelas. "A câmera era apenas como uma outra pessoa entre eles."

Essa outra pessoa capta uma dicotomia que muitas vezes é bastante evasiva num filme. "Espera-se sempre que as mulheres sejam humildes e reservadas," diz Lavigne sobre um sentimento que conhece há algum tempo. "Então, você se depara com essas mulheres, numa sociedade tradicional, que têm essa força. Todas nós temos isso escondido lá dentro - o que esperam de nós e o que realmente somos."

Com toda essa pressão todos os dias, não é de se admirar que dancem a noite toda.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Lola e o Egito: Tá a fim de dançar no Cairo?!

Finalmente consegui assistir ao filme "Tudo que Lola Quiser", que já comentamos aqui. Para quem não sabe, o filme fala sobre uma americana que vai para o Egito e se encanta com a dança do ventre. Apesar de mostrar tanto o lado bom quanto o ruim da dança do ventre por lá, a sensação que temos no final do filme é: AHHH, eu quero dançar no Egito também!!

Bem, a partir de agora, vou tentar ser o menos possível SPOILER, mas quem não quer saber nadica de nada do filme, NÃO LEIA!

O Egito de Lola não é plenamente fantasiado, como muitos críticos apontaram. Nós vemos o submundo da dança do ventre, a clara associação da dançarina do ventre à prostituição, a pobreza do Egito e, sobretudo, como a sociedade egípcia é conservadora e repressora com a mulher. A personagem de Ismahan, professora de dança de Lola, mostra perfeitamente como os erros ou os desvios de conduta de uma mulher jamais são esquecidos, independente de quem ela seja, uma famosa artista ou uma simples qualquer.

Isso me refletiu o que a Nawal Al Saadawi, médica egípcia e autora de diversos livros sobre a mulher muçulmana, fala sobre a situação das mulheres egípcias. É exatamente o que me causava a estranheza ao ver dançarinas tão bem-sucedidas por lá, como a Soraia Zaied e a russa Noor. A palavra feminina vale menos que a do homem, e uma mulher respeitável está sempre sujeita à sua família, seu corpo não é sua propriedade, mas a propriedade da sua família, sobretudo de seu pais e de seus irmãos. Qualquer suspeita de desvio de conduta, a punição não se resume ao ostracismo, mas à morte.

Claro que Nawal fala de uma sociedade egípcia dos anos 70, mas algumas coisas ainda refletem como essa "liberdade" feminina não é acessível a todas as camadas sociais. É o que vemos no filme, na baixa camada da sociedade, as únicas mulheres que vemos independentes, atuando na sociedade, são prostitutas/dançarinas, agora na alta camada, quanta diferença!

Nessa parte, o affair de Lola, Zach e sua família demonstram muitíssimo bem como a mulher rica se coloca na sociedade. A prima de Zach e sua irmã saem sozinhas, fazem compras, mas são extremamente ingênuas, é como se vivessem numa redoma de vidro. E a dança do ventre?! Menina, a dança do ventre para os ricos é arte, só que quem dança não são todas as mulheres. Isso me lembrou muito os meus amigos egípcios, eles adoram a dança do ventre, mas a sua noiva/esposa/namorada/amiga dança pro seu respectivo cônjuge ou numa festa privada de mulheres, nada de exposição da figura! Eles não se incomodam de ver uma mulher dançando, desde que não seja a sua!

Pelo que vemos no filme, existe a nata da dança do ventre, que a dançarina é reconhecida, é festejada, não só por turistas, mas por egípcios mesmo, pela alta sociedade. E existe o submundo, a dança do ventre para o povão, em que a dançarina se não se prostitui, corre o sério risco de ser confundida como tal. Será que todas as dançarinas que vão para o Egito têm acesso à dança do ventre como arte mesmo?

Ser dançarina do ventre pra mim já é o máximo, eu adoro! Mas ver no filme uma dançarina do ventre tão festejada como um astro pop, nossa dá mó vontade de ser igual! Quem não viu o apart-hotel da Soraia Zaied no Fantástico? Que escândalo, muito chique! Ela casou com um egípcio ainda! E ela ainda fala em como é seguro andar pelas ruas do Cairo de madrugada. Pelo visto, o problema não é dançar no Cairo, mas onde dançar no Cairo! E como a Soraia falou: você tem que criar seu estilo para fazer sucesso. O dela foi misturar axé, funk e samba à dança do ventre... Tem gente que canta, tem gente que fica seminua, tem gente que chora dançando, o que podemos fazer? Recitar poemas de Ibn Said?!

Aqui a entrevista de Soraia Zaied no Fantástico, para quem não viu. E aí? Alguém interessada em ser bem-sucedida dançando?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dança do Ventre no Egito: Vantagens e Desvantagens

Muito bem, pessoas, esse post não é para falar as verdades absolutas da vida no Egito, mas pra divulgar algumas informações que recebi de dançarinas que já dançaram por lá e de nativos que me falam sobre suas impressões sobre a dança do ventre.

Vantagens:

1 - Dançar, dançar e aparecer:
No Egito não só há todo um mercado interno pronto para a dança do ventre, como ela também é um dos atrativos turísticos deste país. Ou seja: a dança do ventre é uma atividade comercial e corriqueira, não é como os shows daqui que a maioria do público é de parentes das bailarinas. Lá há sempre gente atrás de eventos de dança do ventre, sejam turistas leigos, como também dançarinas de todo o mundo.

2 - Experiência:
As dançarinas do ventre mais antenadas vão ao Egito para fazer compras (roupas e acessórios) e também para dançar, o que fornece um grande intercâmbio de vivências, conhecimento, não só entre Brasil e Egito, mas entre dançarinas das mais diversas nacionalidades. Esse contato cultural traz não só um vocabulário de dança mais diversificado (senão personalizado, afinal temos que nos destacar no meio de tanta mulher), como também um amadurecimento com o público, com colegas de profissão (não somente amiguinhas do mesmo centro de danças) e com a própria ideia que temos da dança do ventre.

3 - Qualidade:
Pois bem, estar no Egito é dançar ao lado de grandes nomes consagrados, e também de dançar ao lado de desconhecidas muito talentosas. Claro que estou me referindo aos locais de dança para turistas, os hotéis, e o famoso Sheraton Cairo Hotel, onde dança Soraia Zayed. Dançar ao lado de estrelas e de tanta gente talentosa já é um desafio, agora pense em dançar toda noite com uma banda ao vivo, com músicos de verdade (de verdade é ironia mesmo, hehehe): que responsabilidade, hein? Dançar ao vivo, arrasar e ainda segurar a banda na mão. Segundo li em alguns relatos de dançarinas, a banda e a dançarina ensaiam antes da apresentação para que tudo saia perfeito.

Desvantagens:

1 - Dançarina do ventre nunca é estrela:
Para você e para o mundo ocidental, dançar no Egito é "abalar Bangu", é ser diva total. Agora viva lá para sentir na pele o que é ser discriminada. Para se ter uma ideia, para tirar a licença para dançar é preciso fazer teste de HIV. Dá para ter uma noção de como eles enxergam a dançarina. Dentro do Hotel você pode ser uma deusa, mas na sua vida social, vai ser preciso tomar muito cuidado para não ser confundida com uma prostituta.

2 - Prostituição × Dança do Ventre:
Existem os hotéis e também os bordéis para a atividade da dança do ventre. Há alguns vídeos no youtube mostrando este localzinho nojento, mas a prostituição não tá milimetricamente delimitada entre esses dois meios. Já contei da menina que foi dançar no Egito, e foi estuprada, ela não estava em um bordel. Infelizmente isso não é uma exceção. Ofertas de shows particulares, eventos que pagam muito acima da faixa são perigosos! Muitas vezes a dançarina é contratada como prostituta, porque não há uma diferenciação clara entre o que é ra'assa e o que é ra'issa (dançarina que se prostitui e que não se prostitui), e ela não percebe a armadilha. Ter um agente de confiança é fundamental, mas esses riscos rondam todo o meio da dança do ventre no Egito.

3 - Submundo do Egito:
Onde está o submundo do Egito? A dança do ventre está permeada dele. No Festival Ahlan Wa Sahlan não é difícil encontrar dançarinas drogadas se apresentando. Péssimo isso, eu sei. Mas dançar por lá é conviver com isso também, por isso a polícia (da moral e dos bons costumes) sempre está realizando entrevistas com as bailarinas, fiscalizando até mesmo seus figurinos, mas ainda que isso não resolva o problema, as mantêm sob constante vigilância. Fora dos hotéis e dos bordéis, a dança do ventre é assunto de família, dançada em casa para o marido, então aquelas que dançam em público já são consideradas a escória da sociedade, já são parte do submundo.

Então é mais ou menos isso. Quem tiver mais informações, pode acrescentar aqui! Quem quiser ir ao Egito, esteja preparada, para não se decepcionar (quantas já tive que ouvir por isso), vá com o pé no chão, e aproveite a estadia! Abaixo Soraia Zayed no Sheraton!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Diferentes Estilos de Dança do Ventre - Estilo Egípcio

A dança é uma forma de arte alegre e envolvente. Ela evolui junto com as diferentes culturas que a adotam. Por causa disso, existem muitos estilos diferentes de "dança do ventre". Comecemos a tentar reconhecer o estilo egípcio através de algumas características comuns.

Estilo Egípcio de Dança do Ventre

tahia kariocaO Estilo Egípcio, como o próprio nome já diz, é oriundo do Egito, destacando-se as cidades do Cairo e Alexandria. As estrelas de dança egípcia ganharam fama por se diferenciarem das dançarinas do ventre em geral, também se diferenciando muito entre si. Dessa forma há uma grande variedade de interpretações dentro deste estilo, mas ainda assim, há certos elementos que parecem comuns à dança do ventre egípcia. Geralmente, as dançarinas acompanham mais o ritmo de um instrumento do que a melodia, ainda que existam dançarinas que dancem um tanto "melodicamente" às vezes. Elas também possuem um estilo um tanto leve, o que faz a dança parecer muito fundamentada e tradicional. Assim como acontece com todas as danças orientais, a dança do ventre egípcia é profundamente mergulhada na música folclórica e na dança do Egito. Os ritmos Saidi e suas variações, por exemplo, são muito comuns.


Muitos elementos diferenciam a Era de Ouro do Estilo Egípcio dos estilos mais modernos. A Era de Ouro faz referência às estrelas da dança egípcia dos anos de 1920 a 1950. Alguns dos nomes mais famosos daquela época incluem Samia Gamal, Tahia Carioca, Naima Akef e poderia se estender às gerações seguintes como Souhair Zaki, Nagwa Fouad, Fifi Abdo, Mona Said e Aza Sharif. O estilo egípcio moderno relaciona-se com as tendências mais atuais na dança oriental egípcia. Algumas delas incluem elementos do balé e da dança moderna. Grandes nomes da dança do ventre egípcia são Dina, Tito e Randa Kamal. Há também muitos dançarinos de outra nacionalidades que adotaram o estilo egípcio em sua própria dança. Alguns nomes merecem destaque como Orit (Israel), Leila (EUA), Sahra Kent (EUA), Yasmin (EUA), Nour (Rússia), Asmahan (Argentina) e Soraya (Brasil).

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